Saúde

Médicos alertam que a soroterapia para fins estéticos e de bem-estar carece de respaldo científico

11 de Julho de 2026 às 15:02

Médicos e órgãos como o Cremego e a SBD alertam contra a soroterapia para fins estéticos e de performance por falta de comprovação científica. A prática, impulsionada por influenciadores, pode causar reações adversas, toxicidade e complicações sistêmicas graves. O procedimento é indicado apenas para casos médicos específicos, como desnutrição grave ou incapacidade de absorção oral

A popularização da soroterapia como método para promover bem-estar, longevidade e estética tem gerado alertas no meio médico, especialmente após a divulgação de sessões do procedimento por influenciadores digitais, como Virgínia Fonseca, que relatou maior disposição após o tratamento. A prática, conhecida como terapia nutricional endovenosa, consiste na aplicação de vitaminas, minerais, aminoácidos, antioxidantes, eletrólitos ou medicamentos diretamente na corrente sanguínea.

Embora a infusão intravenosa seja um recurso consolidado e indispensável na medicina para pacientes internados, pessoas com desnutrição grave, síndromes de má absorção intestinal, pós-operatório de cirurgia bariátrica ou deficiências vitamínicas severas, a sua comercialização em clínicas de estética para fins de emagrecimento, rejuvenescimento e aumento de performance física carece de respaldo científico.

A endocrinologista Lizanka Marinheiro, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), explica que a administração direta na veia não torna a substância mais eficaz ou saudável, apenas acelera a chegada à circulação ao pular a absorção gastrointestinal. Esse processo pode precipitar reações adversas, incompatibilidades ou toxicidade por doses excessivas. Para indivíduos saudáveis e com dieta equilibrada, o organismo já absorve nutrientes eficientemente por via oral, tornando as infusões desnecessárias. Muitas vezes, o excesso de vitaminas hidrossolúveis, como a C e o complexo B, é simplesmente eliminado pela urina.

A nutróloga Sandra Fernandes, da Kora Saúde, reforça a necessidade de distinguir a terapia intravenosa médica — indicada para casos de desidratação ou incapacidade de absorção oral — da sua aplicação como solução generalizada sem avaliação individual. A melhora relatada por alguns usuários pode ser fruto de hidratação, repouso, efeito placebo ou regressão natural de cansaço, e não de ensaios clínicos robustos.

Os riscos do procedimento incluem desde complicações locais, como flebite, hematomas, dor e infecções, até reações sistêmicas graves. Podem ocorrer náuseas, tonturas, alterações na pressão arterial e no ritmo cardíaco, distúrbios nos níveis de glicose, potássio, sódio, cálcio e magnésio, além de sobrecarga renal e hepática. Um exemplo desses riscos ocorreu com a gerente de marketing Soraia Dias, que, aos 54 anos, precisou de atendimento em um pronto-socorro com tonturas e formigamento nas pernas após receber uma infusão para melhorar o desempenho em uma palestra.

Diante da repercussão recente, o Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego) emitiu um alerta sobre a ausência de evidências científicas para promessas de perda de peso, ganho de massa muscular e combate à queda de cabelo via soroterapia. O órgão destaca que a prática tem sido impulsionada por artistas e influenciadores, alertando para riscos que podem ser fatais. O Cremego ressalta que a conduta é condenada pela Resolução CFM número 2004/2012 e já foi questionada por diversas sociedades de especialidades médicas.

No mesmo sentido, a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) publicou nota afirmando que a soroterapia com fins dermatológicos não possui estudos consistentes que comprovem sua segurança e eficácia, não integrando o rol de procedimentos médicos reconhecidos.

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