Saúde

Negligência no diagnóstico da infertilidade masculina atrasa tratamentos de casais no Reino Unido

29 de Junho de 2026 às 09:03

Diretrizes do Nice recomendam a avaliação simultânea de ambos os parceiros após 12 meses de tentativas de concepção no Reino Unido. No entanto, a prática clínica e as políticas públicas priorizam a saúde reprodutiva feminina, dificultando o diagnóstico da infertilidade masculina

Negligência no diagnóstico da infertilidade masculina atrasa tratamentos de casais no Reino Unido
BBC

A negligência no diagnóstico e no tratamento da infertilidade masculina tem sido um obstáculo para casais que buscam a parentalidade, frequentemente colocando o homem em uma posição secundária no processo clínico. No Reino Unido, diretrizes do Instituto Nacional de Saúde e Excelência Clínica (Nice) recomendam que, após 12 meses de tentativas frustradas de concepção sem contracepção, ambos os parceiros sejam avaliados simultaneamente. No entanto, a prática cotidiana muitas vezes diverge dessa norma, concentrando a atenção médica quase exclusivamente na mulher.

Essa disparidade é refletida na estrutura dos serviços de saúde. Como as clínicas de fertilidade são majoritariamente geridas por ginecologistas, a formação voltada à saúde reprodutiva feminina acaba prevalecendo, o que pode relegar a saúde do homem a uma preocupação secundária, desde o atendimento inicial com clínicos gerais até etapas avançadas de tratamento.

O impacto desse cenário é visível em casos como o de Luke, que, após 18 meses de tentativas e um procedimento de fertilização in vitro (FIV) malsucedido, descobriu que o problema residia em seu esperma. A demora na investigação masculina resultou em um processo mais longo e desgastante. Outro exemplo é o de James, que enfrentou dois anos de espera e a necessidade de consultas particulares com urologistas para obter um diagnóstico detalhado, sentindo-se isolado e culpado pelo sofrimento da parceira.

A exclusão do homem no processo de fertilidade gera um ciclo prejudicial. Pesquisas lideradas por Bola Grace, da University College London, indicam que muitos homens desejam participar ativamente, mas sentem que suas vozes não são ouvidas. Essa marginalização pode levar ao desinteresse ou à omissão, o que, por sua vez, reforça a percepção de que o homem não tem interesse no tratamento. Além disso, sobrecarrega a mulher com a maior parte do peso emocional e prático das decisões e do planejamento.

A diferença de abordagem também é evidenciada em políticas públicas. O Departamento de Saúde do Reino Unido publicou estratégias distintas para os sexos: enquanto o documento feminino menciona a fertilidade cerca de 20 vezes, o masculino a cita apenas cinco, relacionando-a quase sempre a fatores como obesidade e consumo de álcool.

Do ponto de vista clínico, a infertilidade masculina pode ser um sinal precoce de problemas de saúde mais amplos, como alterações hormonais e obesidade. Hussain Alnajjar, cirurgião urológico, ressalta que o espermograma alterado pode ser a porta de entrada para investigações médicas preventivas essenciais.

Para mitigar o estigma e a falta de apoio, iniciativas independentes têm surgido. Shaun Greenaway e Ciaran Hannington criaram o *Male Fertility Podcast* e redes de apoio via WhatsApp para compartilhar experiências e combater o tabu. No âmbito educacional, novas diretrizes escolares na Inglaterra, desenvolvidas pela Sociedade Britânica de Fertilidade e pela Universidade de Cardiff, agora atribuem a mesma importância aos riscos masculinos — como o uso de esteroides e má alimentação — e aos femininos.

A mudança de paradigma também começa a aparecer em eventos do setor, como a *Fertility Show* em Londres, que passou a dar destaque a tecnologias de análise de sêmen e palestras sobre saúde reprodutiva masculina.

No Brasil, a rede de atendimento especializado é heterogênea, variando entre estados e instituições. A Anvisa registra 227 centros de Reprodução Humana Assistida, divididos entre esferas públicas e privadas.

Apesar dos avanços, a recuperação da fertilidade masculina exige persistência. Especialistas, como Allan Pacey, da Universidade de Manchester, alertam que mudanças de hábito, como a interrupção do tabagismo e do álcool, precisam de tempo para surtir efeito, já que o ciclo de produção de espermatozoides leva cerca de três meses.

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