Saúde

OMS alerta para a desigualdade global no acesso a tratamentos e serviços de oncologia

08 de Julho de 2026 às 15:13

A OMS alerta para a desigualdade global no acesso a serviços de oncologia, com projeção de 35 milhões de novos casos anuais até 2050. Países pobres registram taxas de sobrevivência inferiores a 30% para câncer infantil e de mama, enquanto nações ricas chegam a 85%. A escassez de fármacos prioritários e a falta de infraestrutura de radioterapia em 23 países agravam o cenário

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para a persistência e o agravamento das desigualdades no acesso a serviços básicos de oncologia, evidenciando que os avanços científicos e tecnológicos não atingiram a população de forma equânime. Atualmente, a entidade estima a ocorrência de 20,6 milhões de novos casos e 10 milhões de óbitos anuais em escala global, com a projeção de que a incidência de novos diagnósticos alcance quase 35 milhões por ano até 2050. Os dados indicam que a doença afetará 92% da população mundial, seja por diagnóstico próprio ou de familiares, e que uma em cada cinco pessoas desenvolverá a patologia ao longo da vida.

O abismo entre nações ricas e pobres é crítico em todas as fases do cuidado. Enquanto países de alta renda registram taxas de sobrevivência de cinco anos próximas a 85% para câncer infantil e de mama, nos países mais pobres esse índice cai para menos de 30%. A disparidade se estende à disponibilidade de fármacos: nos países de baixa e média-baixa renda, apenas entre 9% e 54% dos 20 medicamentos prioritários da OMS estão acessíveis, contra 68% a 94% nas nações desenvolvidas. Além disso, 23 países não dispõem de infraestrutura para radioterapia.

Na África Subsaariana, a situação é agravada por taxas de diagnóstico menores do que em regiões ricas, embora o continente apresente um volume desproporcional de mortes, reflexo da dificuldade de acesso ao tratamento adequado e à detecção precoce.

O impacto financeiro é outro entrave central, já que dois terços dos países não integram o combate ao câncer em seus planos universais de saúde. Em certas localidades, o custo elevado leva até 90% dos pacientes a abandonarem a terapia. Relatos de sobreviventes e defensores de pacientes, como Abigail Simon-Hart, na Nigéria, apontam que famílias são forçadas a escolher entre o tratamento oncológico e necessidades básicas, como a educação dos filhos. Somam-se a isso problemas de saúde mental, a sobrecarga de cuidadores e o estigma social, que em alguns casos leva mulheres a recusarem mastectomias salvadoras de vida por questões culturais.

Apesar do cenário, a OMS identifica progressos, como a viabilidade de eliminar o câncer do colo do útero, a redução do consumo de tabaco em diversos países e a implementação de planos nacionais de ação na maioria das nações. A Dra. Isabelle Soerjomataram, da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, ressalta que quatro em cada dez novos casos poderiam ser evitados com o controle de fatores de risco como o uso de tabaco, álcool, excesso de peso e infecções.

Para reverter esse quadro, a OMS defende que os governos ampliem o financiamento de toda a rede de assistência, desde a prevenção e diagnóstico até o tratamento e cuidados paliativos, enfatizando que a assistência ao paciente deve ter a mesma importância atribuída à busca pela cura.

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