Síndrome dos Ovários Policísticos passa a ser chamada de Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina
A Síndrome dos Ovários Policísticos foi renomeada para Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina, conforme publicação da revista The Lancet. A alteração, coordenada pelo Global Name Change Consortium com apoio da SBEM no Brasil, visa corrigir imprecisões técnicas e refletir a natureza endócrina da condição. A transição da nomenclatura ocorrerá gradualmente até 2028, mantendo-se os critérios de diagnóstico e tratamento
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A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) passou a ser denominada Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP). A mudança de nomenclatura, publicada nesta terça-feira (12) na revista médica *The Lancet*, corrige uma imprecisão técnica do termo anterior, que sugeria a presença de cistos patológicos nos ovários. Na realidade, os exames de ultrassom detectam múltiplos pequenos folículos com desenvolvimento interrompido, e não cistos clínicos.
A atualização é fruto de um esforço internacional do Global Name Change Consortium, que envolveu 14 mil respostas em pesquisas globais e a colaboração de 56 organizações científicas, clínicas e de pacientes. O Brasil integrou o processo por meio da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), representada pela professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Poli Mara Spritzer.
A nova terminologia reflete a natureza da condição, que envolve a participação de diversos sistemas endócrinos — conceito sintetizado pelo termo "poliendócrina". A síndrome caracteriza-se por alterações em múltiplos hormônios, como insulina, hormônio luteinizante (LH), hormônio antimülleriano (AMH) e androgênios. A resistência à insulina afeta cerca de 85% dos pacientes, incidindo inclusive em 75% das mulheres magras. Esse mecanismo intensifica a produção de androgênios e vincula a SOMP a riscos cardiometabólicos, como obesidade, pressão elevada, colesterol alto, gordura no fígado, pré-diabetes, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.
No cotidiano, a condição se manifesta por meio de ciclos menstruais irregulares, acne, ganho de peso, queda de cabelo em padrão androgenético, aumento de pelos no corpo e rosto, além de dificuldade para engravidar. O quadro também está relacionado a índices mais elevados de depressão, ansiedade e menor qualidade de vida, fatores agravados pelo estigma e pela demora no diagnóstico. Estima-se que até 70% das mulheres afetadas não tenham o diagnóstico.
A SBEM ressalta que a mudança evidencia a origem genética, endócrina e metabólica da síndrome, demandando uma abordagem multidisciplinar que o nome anterior, focado apenas nos ovários, omitia.
Apesar da nova nomenclatura, os critérios diagnósticos e a estrutura do tratamento permanecem os mesmos. Para mulheres adultas, a SOMP é identificada pela presença de ao menos dois de três critérios, após a exclusão de outras causas. No caso de adolescentes, a exigência é a presença simultânea dos três critérios.
O tratamento segue individualizado e contínuo, podendo envolver o uso de metformina para a resposta à insulina, antiandrogênicos, anticoncepcionais hormonais, indutores de ovulação e monitoramento metabólico. Mudanças no estilo de vida, como atividade física, alimentação adequada e controle de peso, são fundamentais, especialmente para quem apresenta resistência à insulina, já que perdas ponderais modestas podem regular a ovulação, os ciclos e os parâmetros metabólicos.
A transição para o nome SOMP ocorrerá gradualmente ao longo de três anos. O processo inclui a atualização de materiais educativos, diretrizes clínicas, prontuários eletrônicos e a Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS). A integração total às diretrizes internacionais, adotadas em 195 países, está prevista para 2028.
Para Poli Mara Spritzer, a alteração pode ampliar a visibilidade da síndrome em políticas públicas e atrair mais financiamento para pesquisas, área que ainda é subfinanciada diante da alta prevalência da condição.