Terapia CAR-T apresenta alta eficácia contra tumores, mas custo e logística limitam acesso no Brasil
Estudo publicado na revista Frontiers in Hematology aponta custos elevados, complexidade hospitalar e logística como barreiras à expansão da terapia CAR-T no Brasil. O tratamento, indicado para mieloma múltiplo, linfoma e leucemia, possui quatro terapias homologadas entre 2022 e 2024. Fiocruz, INCA e USP buscam desenvolver versões nacionais da tecnologia para reduzir a dependência estrangeira e os preços
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A terapia CAR-T, que reprograma células do sistema imunológico para combater tumores hematológicos agressivos, apresenta taxas de resposta de até 80% em certas patologias, com remissões completas em mais da metade dos casos. No Brasil, o tratamento é aprovado para tipos específicos de mieloma múltiplo, linfoma e leucemia, com quatro terapias homologadas entre 2022 e 2024. Apesar de ser a única nação da América Latina com acesso estruturado a essa tecnologia, o país enfrenta barreiras críticas que impedem que muitos pacientes cheguem ao procedimento a tempo.
Um estudo publicado na revista *Frontiers in Hematology*, elaborado por oncologistas, gestores de saúde pública, juristas e representantes de pacientes, mapeia os entraves para a expansão da terapia. O processo consiste na retirada de linfócitos T do sangue do paciente, que passam por modificação genética em laboratório para identificar e atacar células tumorais antes de serem reinfundidos no organismo.
O custo elevado é um dos principais obstáculos, com valores que podem ultrapassar US$ 500 mil (aproximadamente R$ 2,8 milhões) por paciente, chegando a R$ 4 milhões em dose única em alguns casos. Além do preço, a complexidade da estrutura hospitalar e a necessidade de equipes altamente treinadas limitam a oferta. No setor privado, o impacto financeiro pressiona as operadoras de saúde, enquanto no Sistema Único de Saúde (SUS) faltam modelos de financiamento e de incorporação da tecnologia, o que leva a um volume significativo de judicialização para a obtenção do tratamento.
A logística em um país de dimensões continentais também compromete a eficácia do acesso. Parte das células coletadas ainda precisa ser enviada a laboratórios nos Estados Unidos e na Holanda. Esse fluxo gera dificuldades geográficas severas, onde pacientes de certas regiões podem levar até dois dias de barco para alcançar centros habilitados, além de riscos relacionados a falhas em conexões aéreas.
Para reverter esse cenário, o estudo propõe a criação de protocolos nacionais, a ampliação da rede de centros especializados e o desenvolvimento de sistemas de monitoramento de pacientes. A estratégia para reduzir a dependência de laboratórios estrangeiros e baixar os custos passa pelo desenvolvimento de versões nacionais da terapia, com iniciativas conduzidas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Instituto Nacional de Câncer (INCA) e Universidade de São Paulo (USP).
Experiências internacionais na China e na Índia indicam que a produção local pode reduzir os custos em até dez vezes. A consolidação do Brasil como referência regional em terapias celulares avançadas depende, portanto, de investimentos em infraestrutura, qualificação de profissionais e de uma reorganização do sistema de saúde.