Saúde

Uso de produtos antienvelhecimento por crianças gera alertas entre dermatologistas e psicólogos

08 de Junho de 2026 às 09:07

O uso precoce de cosméticos antienvelhecimento por crianças, impulsionado por redes sociais, gera alertas médicos sobre riscos à pele e à saúde mental. Pesquisas indicam que quase metade de crianças entre 9 e 12 anos utiliza múltiplos produtos semanalmente. A Autoridade Italiana da Concorrência investiga a LVMH por possíveis estratégias de marketing direcionadas a esse público

Uso de produtos antienvelhecimento por crianças gera alertas entre dermatologistas e psicólogos
BBC

O uso precoce e intensivo de produtos de cuidados com a pele por crianças, impulsionado por tendências em redes sociais, tem gerado alertas entre dermatologistas e psicólogos. O fenômeno, que envolve meninas de idades cada vez menores — algumas com apenas 3 ou 4 anos —, manifesta-se principalmente em vídeos de rotinas de beleza, como os do tipo "arrume-se comigo", onde são exibidos passos complexos de skincare e maquiagem.

Essa tendência reflete uma mudança no consumo: enquanto antigamente o foco eram sabonetes e esfoliantes para acne, hoje as crianças utilizam cosméticos sofisticados, incluindo ingredientes antienvelhecimento, na busca por peles extremamente lisas e luminosas, estética conhecida como "glass skin". Um levantamento da marca Pai, com 1.500 crianças de 9 a 12 anos, indica que quase metade desse grupo utiliza múltiplos produtos semanalmente, sendo que metade dessas usuárias busca corrigir imperfeições percebidas na pele.

A exposição a esse mercado é amplificada por influenciadoras mirins. Ellie-May, que começou a gravar vídeos aos 10 anos e soma mais de 330 mil seguidores no TikTok, exemplifica esse cenário ao compartilhar rotinas com tônicos, séruns e corretivos. Algumas dessas jovens chegam a atuar como embaixadoras de marcas como Bubble, Drunk Elephant e P. Louise, ou utilizam kits inspirados em animações, como "Guerreiras do K-Pop".

Do ponto de vista médico, a prática é considerada desnecessária e potencialmente perigosa. A dermatologista Jean Ayer, consultora do NHS, explica que a barreira cutânea de crianças é naturalmente preservada, tornando produtos antienvelhecimento inúteis ou prejudiciais. O uso de substâncias como o retinol, que acelera a renovação celular, pode causar a "queimadura por retinol", resultando em ardência, sensibilidade prolongada e erupções cutâneas. Ayer relata um aumento de casos de acne, dermatite de contato e até alopecia frontal fibrosante em pacientes jovens.

No campo da saúde mental, especialistas cunharam o termo "cosmeticorexia" para descrever a obsessão precoce pela pele perfeita e o uso compulsivo de cosméticos. O professor Giovanni Damiani, da Universidade de Milão, identificou em pacientes de 8 a 14 anos a correlação entre o tempo excessivo em redes sociais e a dependência de maquiagem para socializar. O psicólogo Alberto Stefana associa esse comportamento ao transtorno dismórfico corporal, alertando que a autoestima dessas crianças passa a depender de curtidas e comentários, gerando ansiedade e vergonha ao se compararem com imagens irreais, muitas vezes alteradas por filtros e inteligência artificial.

O impacto financeiro também é relevante. Um estudo com 100 vídeos de menores de 18 anos no TikTok revelou que o custo médio de uma rotina de skincare é de £125 (aproximadamente R$ 850), com necessidade de reposição a cada três ou quatro meses.

Diante desse cenário, órgãos reguladores começaram a agir. A Autoridade Italiana da Concorrência (AGCM) abriu investigações contra a LVMH, proprietária da Sephora e Benefit, para apurar se a empresa utilizou estratégias de marketing dissimuladas com microinfluenciadores e se omitiu que seus produtos não são destinados a crianças. A LVMH afirmou cooperar com as autoridades e negou possuir campanhas voltadas especificamente para jovens, assegurando que trabalha apenas com influenciadores maiores de 18 anos. No Reino Unido, a Advertising Standards Authority monitora a situação para verificar se problemas semelhantes ocorrem em seu território.

As plataformas digitais também são questionadas. O TikTok afirma possuir proteções para adolescentes e proibir publicidade direcionada a menores de 18 anos, além de oferecer guias para pais. A Meta não se pronunciou sobre o tema.

Para mitigar os riscos, a Cosmetics Toiletry and Perfumery Association (CTPA), no Reino Unido, lançou um guia para pais, após constatar que 40% de quase mil entrevistados sabiam menos sobre skincare do que seus filhos. A entidade reforça que não apoia o uso de produtos antienvelhecimento por crianças e defende a promoção de hábitos de higiene adequados a cada faixa etária.

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