Tecnologia

Anthropic desativa modelos de inteligência artificial após governo Trump exigir restrição de acesso a estrangeiros

16 de Junho de 2026 às 06:18

A Anthropic desativou os modelos Mythos e Fable 5 após o governo dos Estados Unidos exigir a restrição de acesso apenas a cidadãos americanos. A medida ocorreu devido a falhas de segurança detectadas pela Amazon Web Services e a pressões do Departamento de Comércio. O Claude Opus 4.8 segue como a única opção disponível

Anthropic desativa modelos de inteligência artificial após governo Trump exigir restrição de acesso a estrangeiros
Reuters/Dado Ruvic

A Anthropic, startup de inteligência artificial avaliada em US$ 96,5 bilhões, interrompeu subitamente o acesso aos seus modelos Mythos e Fable 5 para consumidores. A medida foi tomada após a administração de Donald Trump exigir que a empresa restringisse o uso desses sistemas a cidadãos americanos, excluindo estrangeiros e até mesmo funcionários não americanos da própria organização. Diante da impossibilidade técnica de implementar tal segmentação, a empresa optou pelo desligamento total dos modelos.

O gatilho para a intervenção do governo, via Departamento de Comércio, foi a ativação de mecanismos de restrição de exportação motivados por falhas de segurança. Investigadores da Amazon Web Services — um dos principais investidores da Anthropic — conseguiram burlar as salvaguardas do Fable 5, versão por assinatura voltada ao público geral. A vulnerabilidade permitiu que a IA identificasse brechas em quatro plataformas de software amplamente utilizadas, fato que levou o CEO da Amazon, Andy Jassy, a se envolver em discussões com a cúpula do governo.

A crise, contudo, é alimentada por tensões prévias entre o fundador da startup, Dario Amodei, e a Casa Branca. Amodei já havia enfrentado o governo ao vetar o uso de sua tecnologia pelo Pentágono em conflitos com o Irã, o que aumentou a vigilância sobre a empresa em Washington. Somam-se a isso as suspeitas de que grupos de cibercriminosos ligados à China pudessem ter hackeado o desenvolvimento da Anthropic para realizar engenharia reversa e replicar a tecnologia.

O modelo Mythos, lançado em abril, era visto como uma ferramenta poderosa para detectar falhas de segurança digitais antigas, despertando o interesse de instituições como o Federal Reserve e o Banco Central. O acesso era rigorosamente controlado, sendo concedido gradualmente a entidades selecionadas. No caso do Fable 5, a Anthropic havia implementado redirecionamentos para o modelo Claude Opus 4.8 sempre que o sistema era solicitado para tarefas sensíveis — modelo este que permanece como a única opção disponível após a desativação dos demais.

Apesar de tentativas de negociação, com técnicos da empresa em reuniões com a CIA e o Departamento de Comércio, o clima na Casa Branca é de descontentamento. Membros da administração classificam a Anthropic como arrogante e afirmam que a startup ignorou avisos sobre vulnerabilidades antes do lançamento dos produtos.

O episódio expôs a dependência tecnológica da União Europeia. A Agência de Cibersegurança da UE (ENISA) e países como Espanha, França, Alemanha e Itália integravam um grupo restrito de quinze nações autorizadas a testar o Mythos. Na Espanha, o Ministério da Transformação Digital já organizava testes de defesa para bancos como Santander e BBVA.

A Comissão Europeia, por meio de seu porta-voz Thomas Regnier, afirmou que o ocorrido reforça a necessidade de soberania tecnológica do bloco. A situação evidenciou que a Lei de IA da Europa é insuficiente quando não há controle sobre o código e a infraestrutura de servidores, deixando o continente sujeito às decisões regulatórias e de segurança dos Estados Unidos.

Notícias Relacionadas