China projeta supercomputador sem GPUs para superar o desempenho do sistema mais rápido do mundo
O Centro Nacional de Supercomputação de Shenzhen apresentou, em 24 de abril de 2026, o projeto do supercomputador Lingshen. O sistema visa atingir desempenho superior a 2 exaflops utilizando apenas CPUs de escala extrema, sem GPUs. A iniciativa busca a independência tecnológica da China diante de restrições de exportação dos Estados Unidos
O Centro Nacional de Supercomputação de Shenzhen apresentou, em 24 de abril de 2026, o projeto do supercomputador Lingshen, que visa romper com a arquitetura dominante global ao buscar um desempenho superior a 2 exaflops sem a utilização de GPUs. A estratégia, detalhada pela diretora do centro e responsável pelo design do sistema, Lu Yutong, foca na independência tecnológica da China, substituindo os aceleradores híbridos por uma estrutura baseada exclusivamente em CPUs de escala extrema.
Para viabilizar essa meta, o sistema será implementado em etapas. A fase piloto já opera com 100 servidores Huawei Kunpeng, utilizando núcleos Taishan de arquitetura ARM para totalizar 12.800 núcleos, com a capacidade sendo ampliada significativamente na fase de produção. O objetivo é transformar o volume massivo de processadores e a eficiência de interconexão em vantagem competitiva, desafiando o modelo de processamento paralelo em larga escala utilizado pelos sistemas mais rápidos da atualidade.
Atualmente, a liderança mundial pertence ao El Capitan, do Departamento de Energia dos Estados Unidos, que registra 1,809 exaflops no benchmark Linpack e um pico teórico de 2,79 exaflops. Diferente da proposta chinesa, a máquina americana utiliza 44.544 APUs AMD MI300A, que integram CPU e GPU no mesmo chip. O Lingshen pretende superar o desempenho real do sistema americano, o que representaria um marco histórico, embora o projeto ainda não tenha sido construído nem submetido a benchmarks reais.
A viabilidade técnica de máquinas sem GPU já foi demonstrada pelo supercomputador japonês Fugaku, que liderou o ranking mundial entre 2020 e 2022 com aproximadamente 0,44 exaflops. Contudo, o Lingshen busca um desempenho quase quatro vezes superior, o que exige saltos significativos em eficiência energética, largura de banda de memória e escalabilidade de interconexão.
O projeto também é uma resposta estratégica às severas restrições de exportação impostas pelos Estados Unidos desde 2019, que limitam o acesso da China a GPUs avançadas para inteligência artificial. Ao priorizar componentes produzidos internamente, o país busca autonomia tecnológica, embora a ausência de fornecedores específicos e o histórico de empresas locais — que ainda não demonstraram desempenho comparável aos chips globais mais avançados — gerem cautela.
Essa cautela é reforçada por tentativas anteriores do Centro de Shenzhen; em 2021, um sistema de 2 exaflops previsto para 2022 acabou adiado devido a dependências tecnológicas externas. Agora, o Lingshen posiciona-se como uma ferramenta geopolítica para garantir a continuidade do avanço computacional chinês, podendo inspirar outras nações a explorar alternativas arquitetônicas em cenários de restrição tecnológica e redefinir os padrões da indústria de computação de alto desempenho.