Estúdio londrino cria primeira atriz virtual feita por inteligência artificial para protagonizar filme
A indústria cinematográfica integra a inteligência artificial na criação e atuação, exemplificada pelo curta "Candela" e a atriz virtual Tilly Norwood. O avanço gera conflitos com sindicatos de atores e instabilidades técnicas em superproduções, levando a parcerias como a entre Google e A24
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A indústria cinematográfica atravessa uma transição profunda, onde a inteligência artificial deixa de ser uma ferramenta invisível de pós-produção para assumir papéis centrais na criação e atuação. Se antes a tecnologia era restrita a ajustes estéticos ou redução de custos — como na recente aquisição de uma startup fundada por Ben Affleck pela Netflix, focada em retocar cenas sem a necessidade de reunir o elenco —, agora ela assume a direção e o protagonismo.
O impacto dessa mudança ficou evidente no Festival de Cannes com a apresentação de "Candela". O curta-metragem, inspirado na noite de São João, foi produzido inteiramente em um computador por Myriam Mira. Com uma equipe de apenas três pessoas e dez dias de trabalho, a diretora utilizou 2,5 milhões de créditos de computação e três ferramentas específicas: o Nano Banana 2 (Google) para imagens base, o Seedance 2.0 (ByteDance) para animação e o Space para a montagem virtual de 2.591 arquivos. Mira ressalta que o processo não é automático, exigindo experimentação e tentativa e erro, especialmente para garantir a continuidade espacial.
Essa nova dinâmica altera a economia do setor. Durante um século, produções de orçamento médio exigiam gastos superiores a 8 milhões de dólares para serem viáveis, o que limitava temas de nicho. Agora, a barreira financeira tornou-se flexível, priorizando o senso criativo sobre o tamanho da equipe. Exemplos disso são a produtora de IA dos Dor Brothers, o universo de fantasia "The Chronicles of Bone", de Kavan the Kid, e a Native Foreign, que moldou digitalmente Paris Hilton para campanhas da Carl's Jr. A plataforma Magnific já processa 175 milhões de arquivos de freelancers e pequenas empresas, reduzindo a dependência de grandes agências e eliminando intermediários.
A fronteira mais polêmica, porém, é a criação de intérpretes sintéticos. O estúdio londrino Particle 6 apresentou Tilly Norwood, a primeira atriz virtual criada totalmente por IA para protagonizar a comédia dramática "Misaligned". Diferente de um deepfake, Norwood é uma entidade digital original. A iniciativa gerou reações intensas de sindicatos como o Equity e o SAG-AFTRA, que denunciam o uso de dados de atores profissionais sem compensação. A atriz Emily Blunt classificou a situação como aterradora, enquanto Melissa Barrera argumentou que a tecnologia rouba a conexão humana essencial ao cinema.
Embora a Particle 6 afirme que o modelo de produção de "Misaligned" é híbrido e requer profissionais humanos para interagir com a protagonista, o caso testa os limites do acordo firmado pelo SAG-AFTRA após 118 dias de greve. O pacto exige consentimento para réplicas digitais e proíbe a substituição total de atores por IA, com revisões periódicas conforme a tecnologia evolui.
Apesar do avanço, a implementação de IA em superproduções ainda enfrenta obstáculos técnicos de consistência. A Disney, por exemplo, rompeu um contrato com a OpenAI após um mês de uso da ferramenta Sora, pois o software não conseguia manter a continuidade visual em cenas longas, alterando modelos de carros e roupas de personagens.
Diante dessa resistência, as gigantes da tecnologia estão mudando a estratégia: em vez de substituir o artista, buscam torná-lo dependente da ferramenta. O Google investiu 75 milhões de dólares em uma aliança com a A24, produtora de "Euphoria". O acordo possui uma cláusula crucial: o Google não terá acesso ao catálogo da A24 para treinar seus modelos, combatendo a "pirataria" de talentos. O objetivo, segundo Scott Belsky, sócio da A24, é criar assistentes de precisão que preservem o controle criativo do diretor, como ocorre com Kane Parsons em "The Backrooms", em vez de automatizar a escrita via prompts.
Enquanto diretores como Christopher Nolan mantêm a tradição de produções físicas massivas, com orçamentos como os 250 milhões de dólares de "Odisséia", a indústria caminha para um ambiente híbrido. A tendência é que a coexistência entre o cinema tradicional, mais caro e exclusivo, e as produções sintéticas se torne a nova norma do mercado.