Pavimentos fotovoltaicos surgem como alternativa para geração de energia elétrica em áreas já impermeabilizadas
Pavimentos fotovoltaicos, como a tecnologia Wattway, geram energia em superfícies de circulação, mas enfrentam desafios de durabilidade e eficiência em rodovias. Projetos na França e nos Estados Unidos registraram oscilações na produção elétrica e deterioração dos módulos. A viabilidade econômica segue sob análise, com foco atual no autoconsumo local em áreas de baixo tráfego

A utilização de pavimentos fotovoltaicos surge como uma alternativa para a geração de energia elétrica local em áreas já impermeabilizadas, como estacionamentos, ciclovias e estradas, eliminando a necessidade de ocupar novas extensões de terra. A tecnologia, que utiliza células solares protegidas por vidro, resina ou materiais compostos, permite a produção de eletricidade em superfícies de circulação, mantendo as características de segurança de uma via.
Um dos principais expoentes dessa solução é a Wattway, desenvolvida pela Colas em parceria com o Instituto Nacional de Energia Solar da França e laboratórios do CEA-Liten. Os módulos da Wattway podem ser aplicados diretamente sobre a infraestrutura viária existente, o que simplifica a instalação em centros urbanos e acessos, além de possuir resistência à derrapagem para suportar a passagem de veículos pesados, incluindo caminhões.
A implementação prática, porém, revela desafios técnicos significativos. Diferente de painéis em telhados ou usinas solares, os módulos no solo enfrentam limitações de inclinação, ventilação e orientação solar, além de estarem sujeitos a frenagens, acúmulo de resíduos e sombreamento. Esses fatores impactam a eficiência energética e a durabilidade do sistema.
Na França, um projeto emblemático na Normandia instalou 2.800 m² de placas em um trecho de 1 km da rodovia RD5, em Tourouvre-au-Perche, em dezembro de 2016. Financiado pelo Ministério do Meio Ambiente francês, o experimento previa a geração anual de 280 mil kWh — volume suficiente para a iluminação pública de uma cidade de 5 mil habitantes. Contudo, os resultados reais mostraram deterioração dos módulos, ruídos e queda na produção elétrica, que teria caído para 150 mil kWh em 2017.
Nos Estados Unidos, a Wattway implementou um projeto na Geórgia, em 2016, no Visitor Information Center de West Point, em parceria com The Ray e o Departamento de Transportes da Geórgia. No primeiro ano, o sistema gerou 8.420,74 kWh. Após uma atualização técnica em 2019, a eficiência subiu 21%, atingindo 144 Wp por metro quadrado.
Essas experiências indicam que a tecnologia é mais viável em locais de tráfego previsível e baixa velocidade, como pátios, portos, aeroportos e calçadas técnicas, onde a manutenção gera menor impacto na circulação. A própria Colas redirecionou o foco da Wattway para o autoconsumo local, visando alimentar equipamentos de sinalização, câmeras, iluminação e recarga de bicicletas elétricas.
Embora a versão mais recente das lajes Wattway tenha obtido as certificações IEC 61215 e IEC 61730 em março de 2024 — marcos de segurança e desempenho no setor fotovoltaico —, a viabilidade econômica segue sob análise. Uma revisão da Renewable and Sustainable Energy Reviews apontou que, nos modelos estudados, os benefícios financeiros não superaram os custos em um horizonte de 20 anos.
A transição do asfalto convencional para pavimentos solares em rodovias de tráfego intenso permanece distante, exigindo que a tecnologia prove sua competitividade frente aos painéis tradicionais. A adoção gradual depende de avaliações rigorosas sobre a resistência ao peso por eixo, drenagem, aderência sob chuva e a comparação de custos com alternativas como coberturas de estacionamentos e usinas em áreas degradadas.