Cânion de Zhemchug é mais profundo que o Grand Canyon e abriga ecossistema marinho complexo
O Cânion de Zhemchug, no Mar de Bering, possui 2.600 metros de profundidade, 160 km de extensão e área de 11.350 km². A formação surgiu no último período glacial via erosão do rio Yukon e posterior submersão. A topografia promove o upwelling, sustentando corais, esponjas e populações de bacalhau e halibute-do-Pacífico

Localizado entre a Sibéria e o Alasca, o Cânion de Zhemchug apresenta-se como uma das paisagens submersas mais extremas da Terra. A formação, cujo nome deriva da palavra russa para "pérola", caracteriza-se por uma fenda submarina com profundidade vertical absoluta de 2.600 metros, superando a marca de 1.857 metros do Grand Canyon, no Arizona. Enquanto o desfiladeiro americano possui 446 km de extensão, a depressão no Mar de Bering estende-se por 160 km em comprimento linear, abrangendo uma área total de 11.350 km² e retendo um volume estimado de 5.800 km³ de água gélida.
A escala do Cânion de Zhemchug o coloca em evidência nas métricas de drenagem e profundidade, embora outros vales submarinos liderem categorias distintas. O Kroenke Canyon, no Pacífico Ocidental, detém a maior extensão linear, com 700 km, e o Cânion de Bering registra 4.300 km³ de retenção hídrica.
A gênese da estrutura ocorreu durante o último período glacial, época em que o nível dos oceanos estava entre 100 e 120 metros abaixo do patamar atual. Essa condição expôs a plataforma continental, permitindo que o rio Yukon, seguindo um curso mais a sudoeste do que o atual, esculpisse a base da trincheira. Após a glaciação, a elevação do nível do mar submergiu o terreno, e a topografia foi posteriormente moldada por correntes de turbidez compostas por rochas e sedimentos, que desgastaram as paredes da depressão ao longo de milênios.
Apesar das condições severas, a topografia acidentada do cânion promove a ressurgência profunda, fenômeno conhecido como *upwelling*. Esse movimento transporta minerais essenciais e águas geladas para a superfície, originando o Cinturão Verde do Mar de Bering. Esse fluxo de nutrientes sustenta um ecossistema tridimensional complexo, onde se encontram esponjas gigantes multicelulares que filtram as correntes profundas e colônias de corais de água fria com bioluminescência fixadas em paredões rochosos. A região é também habitat de populações reprodutivas de halibute-do-Pacífico e do bacalhau-do-Pacífico, espécie de valor comercial.
O estudo da área demanda alta tecnologia devido aos riscos e à profundidade. Em 2016, a ecologista marinha Michelle Ridgway operou um submarino de 2,4 metros para atingir 536 metros de profundidade, operando dentro dos limites de pressão do casco. Dan O’Neill, do Geophysical Institute da University of Alaska, observa que a aparência tranquila da superfície do mar mascara a complexidade da depressão, tornando indispensáveis os mapeamentos batimétricos computadorizados para a visualização dos contornos do vale.
A compreensão definitiva dessas fendas, ainda consideradas territórios inóspitos, deve avançar na próxima década com o aprimoramento de radares acústicos de alta frequência para a criação de mapas tridimensionais. O domínio desses dados cartográficos é visto como fundamental para a definição de estratégias de preservação da biodiversidade marítima extrema e para a manutenção do equilíbrio biológico pesqueiro.