Ciência

Ciência refuta a ideia de que genes isolados determinam comportamentos específicos da personalidade humana

18 de Maio de 2026 às 09:28

A ciência atual define a personalidade humana como poligênica e poliambiental, refutando a influência de genes isolados. Estudos indicam que a herança genética varia entre 9% e 50%, enquanto traumas infantis e o estresse fetal impactam a formação do temperamento. Pesquisas recentes associam o gene CRHR1 ao neuroticismo e sugerem a centralidade do córtex pré-frontal na definição de traços comportamentais

Ciência refuta a ideia de que genes isolados determinam comportamentos específicos da personalidade humana
Getty Images / BBC

A compreensão científica sobre a formação da personalidade humana tem migrado de visões simplistas para um modelo de alta complexidade, onde a interação entre múltiplos genes e diversas influências ambientais molda quem somos. A ideia de que comportamentos específicos, como a agressividade, seriam determinados por genes isolados — como a hipótese do "gene do guerreiro" (uma variante do gene monoamina oxidase A ou MAOA) — foi refutada. Embora essa teoria tenha sido usada em contextos jurídicos, como no caso de Abdelmalek Bayout, que teve a pena reduzida em um ano na Itália em 2009 após a defesa alegar que tal mutação diminuía sua responsabilidade por um homicídio, a ciência atual indica que a realidade é bem mais multifacetada.

A análise da personalidade geralmente se baseia no modelo "Big Five", que divide as características humanas em cinco dimensões: extroversão, amabilidade, conscienciosidade, abertura a experiências e neuroticismo. Historicamente, estudos com gêmeos foram fundamentais para esse debate. Uma meta-análise de 2015, que compilou 2.500 pesquisas realizadas entre 1958 e 2012 com quase 18 mil características, estimou que cerca de 47% das diferenças de temperamento sejam atribuídas a fatores genéticos, enquanto o restante decorreria do ambiente. Outros trabalhos corroboram essa faixa, situando a herança genética entre 40% e 50%.

Contudo, métodos mais modernos, como os estudos de associação genômica ampla, apresentam números divergentes. Ao analisar milhões de pontos do genoma, as estimativas de herdabilidade para os traços do Big Five caíram para um intervalo entre 9% e 18%. Essa discrepância ocorre porque a personalidade é "poligênica": ela resulta da soma de milhares de pequenas variações genéticas distribuídas pelo DNA, e não de um único "interruptor" biológico. A professora Aysu Okbay, do Amsterdam UMC, observa que a resposta real sobre a influência genética provavelmente esteja em um ponto intermediário entre os dados de gêmeos e as análises genômicas.

Paralelamente, a influência do ambiente também se mostra menos linear do que se supunha. Eventos isolados de grande impacto na vida adulta, como ganhar na loteria ou sofrer acidentes graves, têm efeito mínimo sobre a personalidade. Da mesma forma, mudanças como o casamento ou a paternidade alteram traços de forma marginal. O impacto ambiental é mais significativo em traumas ocorridos na infância, que podem elevar o neuroticismo e aumentar riscos de transtornos mentais. O professor Brent Roberts, da University of Illinois, destaca que traumas na fase adulta não deixam marcas tão profundas na estrutura da personalidade.

A influência ambiental começa inclusive antes do nascimento. A hipótese da "programação fetal" sugere que o estresse materno durante a gestação pode afetar o bebê; um estudo de 2022 indicou que filhos de mães com altos níveis de estresse apresentaram mais sinais de medo e tristeza aos três meses. Esse fenômeno pode estar ligado a mecanismos epigenéticos, que alteram a expressão dos genes sem modificar a sequência do DNA.

Atualmente, a ciência trabalha com amostras massivas de dados para detectar efeitos genéticos sutis. Daniel Levey, da Universidade Yale, ressalta a importância de incluir pessoas de ancestralidades não europeias para evitar lacunas culturais nas pesquisas. Entre os achados recentes, Levey identificou que o gene CRHR1, ligado à resposta ao estresse, possui forte associação com o neuroticismo no sistema nervoso, conectando esse traço a condições como ansiedade e depressão.

Outra linha de investigação, ainda em revisão por pares, sugere que a base da personalidade residiria no córtex pré-frontal, área responsável por decisões e planejamento. O estudo indica que genes expressos nessa região estão associados a quase todos os traços do Big Five, exceto a amabilidade. Além disso, a pesquisa questiona o papel central da dopamina na extroversão e na abertura a experiências, já que neurônios dopaminérgicos não apareceram como os mais associados.

O consenso atual é que a natureza humana é "poliambiental" e poligênica. A predisposição genética não é um destino imutável, mas uma tendência que interage com o meio. Como aponta a pesquisadora Jana Instinske, da Universidade Bielefeld, a existência de uma predisposição não garante que o indivíduo se comporte da mesma maneira em todos os contextos ou ao longo de toda a vida.

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