Ciência

Estudo indica que a molécula DMT estimula a multiplicação de células-tronco neurais humanas em laboratório

24 de Julho de 2026 às 06:11

Pesquisadores observaram que a exposição de células-tronco neurais humanas à dimetiltriptamina (DMT) por 24 horas aumentou a multiplicação celular. O estudo registrou a elevação das proteínas BDNF e NGF, essenciais para a sobrevivência e adaptação neural

Estudo indica que a molécula DMT estimula a multiplicação de células-tronco neurais humanas em laboratório
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A ciência moderna está revisando a antiga premissa de que o cérebro adulto seria incapaz de se regenerar. Durante grande parte do século XX, prevaleceu a ideia de que o número de neurônios era fixo e apenas diminuía com o tempo, conceito consolidado em 1913 por Santiago Ramón y Cajal. No entanto, evidências surgidas a partir de 1998 e estudos mais recentes, como os de 2019, indicam que humanos mantêm uma reserva de células-tronco neurais na vida adulta, capazes de se multiplicar e originar novos neurônios.

Um estudo recente investigou se a dimetiltriptamina (DMT), uma molécula psicodélica, poderia atuar como estímulo para despertar essas células, que geralmente permanecem dormentes.

A ação da DMT em células humanas

Para analisar o efeito da substância sem riscos a pacientes, os pesquisadores utilizaram a técnica de reprogramação celular. Células adultas da pele foram reconduzidas a um estado imaturo para gerar células-tronco neurais humanas em laboratório.

Ao exporem essas células à DMT por apenas 24 horas, a equipe observou que uma fração maior de células passou a se multiplicar. O experimento revelou que a molécula impactou a produção de proteínas essenciais para a sobrevivência e adaptação neural:

  • O Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro (BDNF), associado a tratamentos antidepressivos, apresentou um aumento de cerca de cinco vezes em sua expressão gênica e quantidade de proteína.
  • O Fator de Crescimento do Nervo (NGF) teve a maior resposta, com a expressão de seu gene crescendo quase dez vezes.

Mesmo após a remoção da substância, as células previamente expostas à DMT formaram neuroesferas maiores e com maior atividade metabólica. O estudo constatou que a molécula não alterou o tipo de célula ou o rumo de sua maturação, mas deixou as células mais propensas à multiplicação.

Contexto histórico e aplicações terapêuticas

A DMT é o componente principal da ayahuasca, utilizada por povos originários da Amazônia em contextos espirituais e terapêuticos. Embora sintetizada em 1931 por Richard Manske, a substância foi isolada em 1946 pelo brasileiro Oswaldo Gonçalves de Lima a partir da jurema-preta. Seus efeitos psicodélicos em humanos foram caracterizados experimentalmente apenas na década de 1950, por Stephen Szára.

Atualmente, a ciência foca na ação da molécula sobre o receptor de serotonina 5-HT2A. Enquanto estudos em roedores já apontavam que a DMT estimula a neurogênese — inclusive restaurando marcadores em camundongos sob estresse crônico —, a pesquisa com células humanas confirma que uma única dose curta é suficiente para gerar proliferação.

No campo clínico, a UFRN testa o uso da substância para o alívio rápido de sintomas depressivos. Paralelamente, o setor privado desenvolve uma formulação bucal de DMT sintética para tratar a depressão resistente.

O trabalho, intitulado "Proliferative Effects of the Psychedelic N,N-Dimethyltryptamine (DMT) in Human Neural Stem Cells", contou com apoio de instituições como IDOR, UFRJ, UNIRIO e CAPES. Embora a distância entre células em cultura e um cérebro vivo seja complexa, os resultados sugerem que a capacidade terapêutica da molécula pode estar ligada à multiplicação de células-tronco e à criação de novas conexões neurais.

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