Estudo indica que colapso da corrente do Atlântico pode ocorrer já nos anos 2040
Sinais de instabilidade na Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico indicam risco de colapso climático entre 2025 e 2095. O fenômeno, impulsionado pelo degelo da Groenlândia, pode causar frio extremo na Europa e alterar regimes de chuvas na Ásia, África e Brasil

A Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC), sistema responsável por transportar calor das regiões tropicais para o norte do Oceano Atlântico, apresenta sinais de instabilidade que podem levar a um colapso climático abrupto. O mecanismo, que mantém a Europa Ocidental com temperaturas mais amenas do que sua latitude sugere, opera através do deslocamento de águas quentes e salgadas para o norte, onde esfriam, tornam-se mais densas e afundam para retornar ao sul.
Entretanto, o aquecimento global tem intensificado o degelo da Groenlândia, injetando volumes crescentes de água doce no Atlântico Norte. Como a água doce é menos densa que a salgada, ela dificulta o processo de afundamento das massas hídricas, enfraquecendo a corrente. Esse processo possui um comportamento de limiar: ao atingir um ponto crítico, o sistema entra em um ciclo autoalimentado, onde a redução do transporte de calor altera o resfriamento das águas e acelera a perda de força da circulação, tornando o colapso inevitável mesmo com a redução rápida das emissões de gases de efeito estufa.
Um estudo de 2025, publicado na revista *Geophysical Research Letters* por van Westen e Baatsen, modelou os efeitos desse colapso em um cenário de emissões médias. A descoberta indica que o aquecimento global não seria capaz de compensar o resfriamento regional provocado pela interrupção da corrente. Como resultado, extremos de frio em Londres poderiam atingir -20°C — superando a média atual de -10°C a -12°C —, enquanto Oslo poderia registrar temperaturas de -48°C. Tais valores pressionariam severamente a saúde pública, a agricultura e as infraestruturas de transporte e aquecimento residencial nessas regiões.
A janela temporal para esse evento está se estreitando. A Universidade de Copenhague estimou, com 95% de confiança, que o colapso pode ocorrer entre 2025 e 2095, com maior probabilidade em 2057. Outra pesquisa de 2026 antecipou esse prazo, sugerindo que o ponto de inflexão, anteriormente previsto para 2060, pode ser alcançado já nos anos 2040. Esse alerta contrasta com a posição anterior do IPCC, que classificava o colapso antes de 2100 como improvável. Em outubro de 2024, 44 climatologistas assinaram uma carta aberta defendendo que esse risco foi gravemente subestimado, argumentando que modelos tradicionais falham em capturar mudanças abruptas em sistemas de inflexão.
Os impactos, contudo, extrapolam a Europa. O enfraquecimento da AMOC deslocaria para o sul a Zona de Convergência Intertropical, faixa equatorial essencial para a formação de chuvas e monções. Esse movimento afetaria a segurança alimentar de mais de três bilhões de pessoas na Ásia e na África.
No Brasil, as consequências seriam sentidas de forma direta. Na Amazônia, o colapso da corrente poderia inverter os padrões sazonais, tornando a estação seca em chuvosa e reduzindo a força do período de chuvas, o que desestabilizaria ecossistemas e ciclos biológicos. No Nordeste, a alteração da temperatura no Atlântico Norte elevaria o risco de secas intensificadas, impactando reservatórios e a agricultura do semiárido. O Sul do país também estaria sujeito a perturbações na circulação atmosférica e interações com fenômenos como o ENSO.