Ciência

Missões soviéticas Venera 5 e 6 completam 57 anos de exploração da atmosfera de Vênus

18 de Maio de 2026 às 09:29

As sondas soviéticas Venera 5 e 6, lançadas em janeiro de 1969, completaram 57 anos de missões para medir a atmosfera de Vênus. As cápsulas registraram temperaturas de até 320 graus Celsius e a predominância de gás carbônico antes de serem destruídas pela pressão e pelo calor. Os dados coletados fundamentaram a teoria do efeito estufa descontrolado no planeta

Missões soviéticas Venera 5 e 6 completam 57 anos de exploração da atmosfera de Vênus
Ilustração da sonda soviética Venera atravessando as nuvens ácidas de Vênus em 1969

No domingo, 17 de maio de 2026, completaram-se 57 anos das missões soviéticas Venera 5 e Venera 6, sondas que estabeleceram, na época, a maior proximidade da humanidade com a superfície de Vênus. Lançadas em janeiro de 1969 com um intervalo de cinco dias entre si, as naves percorreram 257 milhões de quilômetros durante 131 dias de viagem para refinar as medições atmosféricas iniciadas pela Venera 4 em 1967.

Projetadas pelo Bureau de Design Lavochkin, em Khimki, as cápsulas pesavam 1.130 quilos no lançamento. Para alcançar maiores profundidades antes do esgotamento das baterias, os engenheiros utilizaram paraquedas menores que os de missões anteriores, acelerando a descida. A Venera 5 chegou ao planeta em 16 de maio de 1969, transmitindo dados por 53 minutos até que sua cápsula de 405 quilos cedesse a 24 quilômetros de altitude, registrando 320 graus Celsius e 26 bar de pressão. A Venera 6 entrou na atmosfera noturna no dia seguinte, às 06h05 UTC, e operou por 51 minutos, sendo destruída pela pressão de 60 bar e pelo calor intenso a aproximadamente 10 quilômetros de altitude.

Durante a queda, as sondas registraram temperaturas entre 25 e mais de 320 graus Celsius, pressões de 0,13 a 40 atmosferas e uma densidade do ar até cinquenta vezes superior à da Terra. As medições confirmaram a predominância absoluta de gás carbônico e uma intensidade luminosa de 250 watts por metro quadrado. Esses dados foram fundamentais para a consolidação da teoria do efeito estufa descontrolado (*runaway greenhouse*), que explica como Vênus se tornou um forno planetário, servindo hoje como cenário-limite para climatologistas que estudam o aquecimento global terrestre.

A hostilidade de Vênus é extrema: a superfície apresenta temperatura média de 460 graus Celsius, pressão equivalente a 900 metros de profundidade oceânica e nuvens de ácido sulfúrico que corroem metais rapidamente. Esse ambiente derrubou todas as 29 missões soviéticas e americanas entre 1961 e 1985. O recorde de sobrevivência na superfície permanece com a Venera 13, que em 1º de março de 1982 operou por 127 minutos. Desde então, nenhum equipamento resistiu por mais tempo ao calor, pressão e acidez.

A dificuldade técnica é confirmada por pesquisadores da NASA, que observam que a proximidade com a superfície acelera a fusão de instrumentos, a corrosão de câmeras e a perda de modulação dos rádios devido à densidade atmosférica. Atualmente, cientistas buscam desenvolver eletrônicos de carbeto de silício para suportar temperaturas acima de 500 graus Celsius, já que a barreira tecnológica que destruiu as Venera 5 e 6 ainda não foi superada em escala industrial.

O legado do Bureau de Design Lavochkin, liderado por Georgy Babakin após 1965, incluiu a produção de 16 sondas até 1984, das quais 10 enviaram dados úteis. O sucesso das missões 5 e 6 permitiu a revisão de materiais que culminou na Venera 7, a primeira a aterrissar e transmitir dados da superfície em dezembro de 1970. Além da ciência, as cápsulas de 1969 carregavam medalhões de Vladimir Lenin e o brasão soviético, lançados sobre o lado noturno do planeta.

Novas tentativas de exploração estão programadas. A missão DAVINCI, da NASA, deve chegar a Vênus em junho de 2031 para realizar uma descida atmosférica de cerca de uma hora. Paralelamente, a agência europeia planeja a missão EnVision para 2031, focada em mapeamento por radar, enquanto a Rússia estuda a Venera-D.

No Brasil, a análise desses dados é relevante para grupos acadêmicos da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Por meio de parcerias entre o INPE, a Agência Espacial Brasileira, NASA, ESA e a agência chinesa, pesquisadores utilizam a física planetária de Vênus como referência para entender os limites teóricos do aquecimento global na Terra, especialmente em cenários de queima de combustíveis fósseis.

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