Ciência

Mudanças no estilo de vida melhoram a função cognitiva de participantes em estudo na América Latina

19 de Julho de 2026 às 06:06

O modelo PNDS associa a doença de Alzheimer a gorduras, microinfartos e fatores socioeconômicos. Paralelamente, o estudo LatAm-FINGERS, com 1.065 participantes em 11 países, demonstrou que intervenções sistemáticas no estilo de vida melhoram a memória e a função executiva

Mudanças no estilo de vida melhoram a função cognitiva de participantes em estudo na América Latina
Ageing without limits

A compreensão sobre a doença de Alzheimer está se expandindo para além da análise de proteínas tau e placas beta-amiloides no cérebro. Exames realizados após a morte de pacientes com demência revelaram que a perda cognitiva também está associada ao acúmulo de gorduras e a microinfartos cerebrais — pequenos acidentes vasculares que, embora não apresentem sintomas imediatos, comprometem a capacidade mental ao se acumularem.

O conceito de sindemia na neurociência

Essa nova perspectiva culminou na criação do "Modelo de Sindemias da Neurociência Populacional-Demência" (PNDS), publicado em janeiro de 2026. O termo sindemia, cunhado pelo antropólogo médico Merrill Singer nos anos 1990, refere-se à interação entre duas ou mais doenças que se potencializam mutuamente, tendo seu impacto agravado por contextos socioeconômicos.

O modelo PNDS busca evidenciar como as desigualdades influenciam a saúde cerebral. Beth Shaaban, docente de epidemiologia e enfermagem da Universidade de Pittsburgh, argumenta que fatores como poluição, racismo, sexismo, capacitismo, pobreza, guerras, migrações e desastres naturais geram estresse e aceleram o envelhecimento biológico, contribuindo diretamente para o surgimento da demência.

Impacto de intervenções no estilo de vida na América Latina

A aplicação prática dessa visão abrangente foi testada pela "Iniciativa Latino-Americana para Intervenção no Estilo de Vida para Prevenir o Declínio Cognitivo" (LatAm-FINGERS), com financiamento da Alzheimer's Association. O estudo, que envolveu 1.065 participantes em 12 centros de 11 países — Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, México, Peru e Uruguai —, analisou a eficácia de mudanças de hábitos adaptadas a cada cultura.

A pesquisa dividiu os voluntários em dois grupos distintos ao longo de dois anos:

  • Intervenção Sistemática no Estilo de Vida (ISE): 539 pessoas receberam suporte contínuo e mentoria, com exercícios supervisionados, aconselhamento nutricional, treinamento cognitivo via computador, monitoramento cardiovascular e 38 encontros para interação social.
  • Intervenção Flexível no Estilo de Vida (IFE): 526 pessoas receberam apenas orientações gerais de saúde e participaram de quatro reuniões grupais sobre dieta, atividade física, engajamento social e risco vascular, sem acompanhamento constante.

Resultados e diversidade socioeconômica

Ao final do período, o grupo ISE apresentou uma melhora significativamente superior na memória, função executiva e velocidade de processamento em comparação ao grupo IFE.

Segundo Laura Baker, professora de gerontologia e geriatria da Universidade Wake Forest, a diversidade étnica, racial, de escolaridade e de renda dos participantes comprovou que a saúde cerebral pode ser aprimorada mesmo em comunidades com diferentes níveis de acesso a recursos.

Esses achados corroboram os dados do estudo norte-americano U.S. POINTER, reforçando que estratégias multidisciplinares — combinando alimentação saudável, atividade física, treinamento cognitivo e convívio social — são eficazes para reduzir o risco de demência em diversas populações.

Notícias Relacionadas