Ciência

Pesquisadores identificam microproteínas no "proteoma escuro" que podem ampliar o registro de proteínas humanas

18 de Maio de 2026 às 09:29

Parceria internacional identificou 1.785 microproteínas, denominadas peptideins, em regiões do material genético anteriormente ignoradas. O estudo, publicado na Nature, analisou 7.200 marcos de leitura não convencionais e detectou moléculas que podem ampliar em quase 10% o registro de proteínas humanas. A pesquisa demonstrou que a inativação de um desses peptideins prejudicou a sobrevivência de 85% de linhagens de células cancerígenas

Pesquisadores identificam microproteínas no "proteoma escuro" que podem ampliar o registro de proteínas humanas
Princess Máxima Center for Pediatric Oncology/Ting Luo

Uma parceria internacional de pesquisa, que envolveu instituições como o Centro Max Delbrück, a Universidade de Michigan, o EMBL European Bioinformatics Institute, o Institute for Systems Biology e o Princess Máxima Center for Pediatric Oncology, identificou sinais de uma biologia anteriormente invisível no corpo humano. O estudo, publicado na revista Nature, focou no "proteoma escuro", regiões do material genético que não se encaixavam nas definições clássicas de genes produtores de proteínas e eram, por isso, ignoradas ou consideradas sem função clara.

Para investigar a atividade dessas áreas, a equipe analisou mais de 7.200 regiões denominadas "marcos de leitura não convencionais". O processo envolveu a revisão de 3,7 bilhões de dados individuais extraídos de 95.520 experimentos, demandando aproximadamente 20.000 horas de processamento computacional para determinar quais dessas regiões produziam moléculas estáveis com relevância celular.

A análise resultou na detecção de 1.785 microproteínas, o que pode elevar em quase 10% o registro atual de proteínas humanas. Essas moléculas divergem significativamente das proteínas convencionais: 65% delas possuem menos de 50 aminoácidos, característica presente em menos de 1% das proteínas catalogadas nas bases de referência. Devido a essa distinção, os pesquisadores criaram o termo "peptideins" para classificar essas moléculas de aminoácidos intracelulares cuja função biológica ainda não foi definida.

A descoberta revela que a compreensão atual sobre as proteínas não reflete a totalidade do organismo, evidenciando que milhares de sequências genéticas anteriormente descartadas compõem esse proteoma escuro. A pesquisa já aponta correlações com patologias humanas. Utilizando a edição genética CRISPR, os cientistas identificaram seis peptideins promissores, incluindo um derivado da sequência OLMALINC. Quando essa sequência, antes considerada não codificante, foi inativada, a sobrevivência de 85% de mais de 485 linhagens de células cancerígenas analisadas em laboratório foi prejudicada.

O estudo comprovou que esse impacto ocorreu devido ao peptidein e não ao RNA associado, relacionando a molécula à divisão celular e à resposta a danos no DNA. Como muitas dessas moléculas se localizam na superfície celular, elas surgem como potenciais alvos para vacinas contra o câncer, imunoterapias e tratamentos de doenças genéticas complexas, além de possíveis aplicações em patologias cardiovasculares. Apesar do avanço, a maior parte desse território biológico permanece inexplorada, representando apenas o início da decifração do papel real dessas moléculas no corpo humano.

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