Economia

Argentina formaliza maior concessão mineira desde a década de 1980 para extração de cobre

18 de Maio de 2026 às 12:34

A Argentina formalizou a concessão do projeto Los Azules, em San Juan, com investimento de 4 bilhões de dólares da McEwen Copper para extrair 205 mil toneladas anuais de cobre a partir de 2029 ou 2030. O empreendimento utiliza o Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI), que assegura 2,7 bilhões de dólares em benefícios tributários e regulatórios

Argentina formaliza maior concessão mineira desde a década de 1980 para extração de cobre
Mina a céu aberto de Los Azules, na cordilheira andina da província de San Juan, Argentina

A Argentina formalizou, em setembro de 2025, a maior concessão mineira do país desde a década de 1980. O projeto Los Azules, localizado na província de San Juan, contará com um investimento de 4 bilhões de dólares da McEwen Copper para a extração de 205 mil toneladas anuais de cobre, com início previsto para 2029 ou 2030. O depósito é classificado como o nono maior reservatório de cobre não desenvolvido do mundo e poderá injetar 1,5% de oferta no mercado global na próxima década.

A viabilização do empreendimento ocorreu sob o Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI), política implementada pelo governo de Javier Milei em 2024 para atrair capital estrangeiro em projetos superiores a 200 milhões de dólares. Por meio desse regime, a Argentina assegurou 2,7 bilhões de dólares em incentivos regulatórios e tributários de longo prazo. O RIGI, aprovado pelo Congresso em junho de 2024, oferece estabilidade fiscal por 30 anos, redução do imposto de renda corporativo para 25%, isenção de tributos de importação para equipamentos industriais e livre conversão cambial de dividendos.

A estrutura societária de Los Azules envolve parceiros estratégicos: a montadora Stellantis detém 18,3% das ações, enquanto a Rio Tinto, via subsidiária Nuton, possui 17,2%. A Stellantis investiu no projeto em 2023 para garantir o suprimento de cobre destinado à fabricação de baterias, motores elétricos e sistemas de carregamento rápido. A Rio Tinto aportou 100 milhões de dólares para aplicar tecnologias de biolixiviação. A holding McEwen Copper controla 46,4% do projeto, com o empresário Rob McEwen detendo 12,7% de participação direta, e os 5,4% restantes divididos entre o grupo australiano Smorgon e outros investidores.

O financiamento de 4 bilhões de dólares será dividido em 2,4 bilhões de dólares via dívida estruturada com instituição financeira internacional e 1,6 bilhão de dólares provenientes de capital próprio e aportes futuros. Para complementar os recursos, a McEwen Copper planeja abrir seu capital em bolsa entre outubro e dezembro de 2026, com uma oferta inicial estimada em 300 milhões de dólares.

Tecnicamente, a mina operará a céu aberto, utilizando lixiviação em pilha e extração por solvente com eletrowinning. O processo produzirá catodos de cobre Grau A da London Metal Exchange no próprio local, eliminando a necessidade de transporte de minério bruto. A operação será alimentada por energia 100% renovável desde a inauguração, com meta de neutralidade de carbono para 2038.

A retomada da escala industrial de cobre na Argentina ocorre após o fechamento da mina Alumbrera, em 2018. A combinação de Los Azules com os projetos Filo del Sol e Josemaría — controlados parcialmente por BHP e Lundin Mining — pode triplicar a produção nacional do metal até 2032, posicionando o país entre os dez maiores produtores mundiais até 2035. Atualmente, o cenário global é liderado por Chile, Peru e China, seguidos pelo Congo, que produz cerca de 2,8 milhões de toneladas anuais.

O impacto econômico se estende à região. Para o Brasil, importador líquido de cobre refinado, a nova produção argentina pode reduzir custos logísticos via portos do Atlântico Sul, como Buenos Aires e Bahía Blanca. Simultaneamente, a competitividade do RIGI pode pressionar o governo brasileiro a revisar condições regulatórias para destravar reservas de cobre em Minas Gerais e no Pará.

A consultoria Discovery Alert indica que o RIGI já viabilizou 13 projetos de mineração entre 2025 e 2026, totalizando mais de 18 bilhões de dólares em compromissos focados em cobre, lítio e prata nas províncias de San Juan, Catamarca, Salta e Jujuy. A inclusão de Los Azules no regime ocorreu após revisões técnicas da Secretaria de Mineração da Nação e aval ambiental do governo de San Juan, sob gestão de Marcelo Orrego.

Apesar da blindagem jurídica de 30 anos, o setor monitora a vulnerabilidade histórica da Argentina a mudanças bruscas de regime econômico e a oposição política que questiona a validade do RIGI. Contudo, a garantia fiscal tem sido suficiente para atrair investidores institucionais norte-americanos e europeus para projetos com geração de caixa prevista apenas para depois de 2029.

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