Estados Unidos iniciam cobrança de tarifas adicionais de 25% sobre parte das exportações brasileiras
Estados Unidos iniciaram nesta quarta-feira (22) a cobrança de tarifas adicionais de 25% sobre parte das exportações brasileiras, afetando 2,4 mil empresas. A medida impacta 18% das vendas externas do Brasil, com maior incidência sobre bens industrializados, especialmente no setor de madeira
Entraram em vigor nesta quarta-feira (22) as tarifas adicionais de 25% impostas pelos Estados Unidos sobre parte das exportações brasileiras. A medida atinge diretamente 2,4 mil empresas, embora 57% dos produtos enviados ao país norte-americano tenham ficado isentos da sobretaxa. No total, a estimativa é que 18% das exportações brasileiras sejam efetivamente impactadas.
Impacto setorial e a barreira dos manufaturados
O impacto do "tarifaço" é heterogêneo e concentra-se em setores dependentes do mercado americano. Enquanto as commodities, como carne e café, possuem maior facilidade de redirecionamento por serem produtos padronizados e globais, os bens industrializados enfrentam obstáculos severos.
Setores de máquinas, equipamentos, cerâmica, calçados, móveis e madeira relatam maior complexidade na busca por novos compradores. O setor de madeira é um dos mais afetados: os EUA absorvem 45% das exportações do segmento, e cerca de 80% desses embarques deverão sofrer a taxação.
A dificuldade reside no fato de que produtos manufaturados são desenvolvidos para atender exigências técnicas e regulatórias específicas de cada mercado. A abertura de novos destinos demanda negociações sanitárias, homologações e adaptações logísticas que podem levar de 12 a 36 meses.
Mudança na balança comercial e dependência
A medida ocorre em um momento de menor dependência do Brasil em relação aos EUA. Dados do Comexstat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), mostram que a participação americana nas exportações brasileiras caiu de 19% em 2005 para 12% em 2025, atingindo 9,4% no primeiro semestre de 2026.
Em contrapartida, a China consolidou-se como o principal destino das vendas externas, respondendo por mais de 30% do total. No entanto, há uma disparidade qualitativa: enquanto 80% do que o Brasil exporta para os EUA são produtos industriais, as vendas para outros mercados são concentradas em commodities.
Mesmo com as novas tarifas, o Brasil registrou recorde de exportações em 2025, somando US$ 348,7 bilhões (R$ 1,774 trilhão). Houve crescimento nos embarques para:
- Argentina: 31,4% (impulsionado pelo setor automotivo)
- China: 6%
- União Europeia: 3,2%
Além disso, mais de 40 mercados, incluindo Índia, Canadá, Turquia e Noruega, registraram volumes históricos de compras.
Competitividade e o "Custo Brasil"
Para a indústria, a diversificação geográfica não substitui a necessidade de resolver gargalos internos. O Custo Brasil — que engloba sistema tributário, burocracia, infraestrutura e insegurança jurídica — gera um gasto anual de R$ 1,7 trilhão, o equivalente a 19,5% do Produto Interno Bruto (PIB).
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que a sobretaxa agrava a insegurança e pressiona vendas que já enfrentavam dificuldades. A solução passaria por uma política industrial focada em inovação, produtividade e simplificação tributária.
Metas governamentais e novos mercados
O governo federal, por meio do Plano Plurianual (PPA) 2024-2027, estabeleceu a meta de elevar as exportações de produtos manufaturados de média-alta e alta intensidade tecnológica para US$ 54,3 bilhões (R$ 276,38 bilhões) até 2027. Em 2022, esse valor era de US$ 49,2 bilhões.
Como alternativas para a substituição de volume, destacam-se mercados com potencial de crescimento:
- Ásia: Índia, Indonésia, Vietnã, Tailândia, Filipinas, Malásia e Singapura.
- Oriente Médio e África: Angola, África do Sul, Nigéria e Egito.
Apesar da busca por novos parceiros e acordos como o do Mercosul com a União Europeia, o mercado americano permanece estratégico. A capacidade de atender às rigorosas exigências técnicas dos EUA serve como chancela de qualidade para a entrada em outros mercados rigorosos, como Alemanha, Espanha, México e Canadá.