Casos de estelionato no Brasil cresceram 429,8% desde 2018 segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública
O Brasil registrou 2.261.055 casos de estelionato no ano passado, alta de 429,8% desde 2018, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. As fraudes digitais cresceram 20,6%, enquanto São Paulo apresenta a maior taxa do país com 1.808 ocorrências a cada 100 mil habitantes
O Brasil enfrenta um crescimento expressivo nos casos de estelionato, com um aumento de 429,8% nos registros desde 2018. Os dados constam no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23), e revelam que o país atingiu a marca de 2.261.055 ocorrências no ano passado. Esse volume representa uma média de 258 crimes por hora, ou quatro golpes por minuto, registrando uma alta de 2,7% em comparação a 2024.
O levantamento, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública desde 2011, baseia-se em dados das secretarias de segurança pública de 26 estados e do Distrito Federal. O recorde de fraudes abrange tanto métodos tradicionais, com o uso de cenários e documentos falsos, quanto crimes digitais, que utilizam inteligência artificial, redes sociais, aplicativos e links. Apenas as fraudes digitais cresceram 20,6%, superando 346 mil casos no último ano.
Dinâmica do crime e regionalização
A expansão dos golpes ocorre enquanto os índices de roubos e furtos recuam. O número total de roubos, por exemplo, teve queda de 18,3%, passando de 745.193 para 610.959 registros. Para os pesquisadores do fórum, Samira Bueno e Renato Sérgio de Lima, essa tendência reflete a digitalização e a integração da população ao sistema financeiro formal.
Essa correlação explica por que estados com maior urbanização e conectividade lideram as estatísticas. São Paulo apresenta a maior taxa do país, com 1.808 casos a cada 100 mil habitantes, seguido por Distrito Federal, Paraná, Rondônia, Santa Catarina e Espírito Santo.
Métodos de atuação e impunidade
Um fator central para o sucesso dos criminosos é a engenharia social, técnica que manipula sentimentos como medo, urgência e confiança para que a própria vítima entregue senhas, instale softwares maliciosos ou realize transferências. Devido à alta rentabilidade e ao baixo risco de punição — já que mais de 97% dos estelionatos não chegam ao Poder Judiciário —, a atividade tornou-se atrativa para o crime organizado.
Facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) agora operam "escritórios do crime" especializados em fraudes eletrônicas. O relatório enfatiza que medidas isoladas são ineficazes se não houver um ataque simultâneo à estrutura organizacional e aos canais de lavagem de dinheiro dessas organizações.
As modalidades mais comuns incluem:
- Fraudes Bancárias: Clonagem de cartões via páginas falsas ou maquininhas adulteradas, além da "falsa central bancária", onde o criminoso induz a vítima a transferir fundos para contas seguras.
- Aplicações Digitais: Golpes via WhatsApp, com a personificação de familiares, e fraudes envolvendo o PIX, utilizado em vendas inexistentes, QR Codes alterados e falsas promessas de investimento.
- Engenharia de Dados: Uso indevido de CPF via SMS para capturar credenciais e a criação de lojas ou leilões falsos com preços abaixo do mercado para atrair pagamentos via boleto ou Pix.
Panorama da violência e sistema prisional
Apesar da redução geral nas mortes violentas — que atingiram a menor taxa histórica desde 2012, com 19,1 mortes por 100 mil habitantes (total de 40.775 assassinados) —, o cenário para as mulheres é crítico. Os feminicídios bateram recorde em 2025, com 1.571 mulheres assassinadas, o que representa um aumento de 4% em relação ao ano anterior.
No âmbito municipal, Maranguape (CE) lidera o ranking de mortes violentas pelo segundo ano consecutivo, sendo a única cidade a ultrapassar 100 mortes por 100 mil habitantes. Já Santa Catarina assumiu a posição de estado com a menor taxa do país (7,6), superando São Paulo.
Outros indicadores relevantes do anuário apontam:
- Segurança Pública: Aumento de 5% nas mortes cometidas por policiais e queda de 3% nos óbitos de agentes.
- Crimes Digitais e Juvenis: Crescimento de 25% na produção de conteúdo de abuso sexual infantil e alta de 60% nos casos de bullying e cyberbullying entre jovens.
- Sistema Prisional: A população carcerária cresceu 6%, chegando a 964 mil pessoas, com projeção de atingir 1 milhão de presos até 2027.
- Medidas Socioeducativas: Queda de 54% no número de adolescentes sob medida socioeducativa em nove anos, totalizando 12,2 mil jovens (predominantemente meninos, negros e entre 16 e 18 anos), com roubo e tráfico como principais ocorrências.
- Armamentos: Existem 2,1 milhões de pessoas e empresas autorizadas a possuir armas, sendo 1 milhão com licença de CAC. Do total de 1,6 milhão de armas cadastradas, 30% estão com o registro vencido.