Autômato de prata do século 18 funciona sem eletricidade após 253 anos de fabricação
O Cisne de Prata, autômato de 1773 feito de prata e bronze, funciona via molas no Bowes Museum, na Inglaterra. A obra de John Joseph Merlin e James Cox passou por restauração entre 2022 e 2024. Atualmente, a peça é estudada por instituições como o Instituto Smithsonian e o Museu de Ciência de Londres

O Cisne de Prata, um automaton mecânico criado em 1773, permanece em pleno funcionamento 253 anos após sua fabricação, sem a utilização de qualquer motor elétrico. A peça, que integra o acervo do Bowes Museum, em Barnard Castle, no condado de Durham, na Inglaterra, opera exclusivamente por meio de molas de relógio que exigem corda diária.
A obra é fruto de uma parceria entre o inventor flamengo John Joseph Merlin — conhecido por criar patins com rodas e instrumentos musicais autônomos — e o joalheiro londrino James Cox, cujo ateliê era especializado em peças de luxo para a diplomacia comercial com a China. Construído em prata maciça com engrenagens internas de bronze, o cisne de tamanho natural executa, em 32 segundos, uma sequência que combina música, movimentos de pescoço e a captura de um peixe de prata sobre hastes de vidro que simulam água.
A trajetória da peça envolveu décadas em coleções privadas europeias e passagens por casas de leilões em Paris e Bruxelas. Em maio de 1867, o automaton foi destaque na Exposição Universal de Paris, evento que reuniu inventores de 41 países e atraiu a atenção do escritor Mark Twain, que descreveu a "graça viva" de seus movimentos. O sucesso na capital francesa levou o industrial John Bowes a adquirir a obra em 1872, pagando um valor equivalente ao preço de duas casas de classe alta da era vitoriana. Desde então, o objeto permanece no museu fundado por John e Joséphine Bowes, em um edifício inspirado nos châteaus franceses.
A longevidade do mecanismo é atribuída a três pilares de engenharia: a redundância mecânica, onde múltiplas molas acionam o mesmo movimento para evitar interrupções; o uso de materiais puros, como prata e bronze, resistentes à corrosão; e um rigoroso protocolo de manutenção. O museu limita as apresentações, geralmente às 14 horas, para preservar as 18 peças esculpidas à mão.
Recentemente, entre 2022 e março de 2024, o Cisne de Prata passou por uma restauração completa. Durante 18 meses, especialistas em conservação patrimonial, formados em escolas suíças e alemãs, desmontaram as mais de 600 engrenagens, realizaram polimentos manuais e substituíram molas desgastadas por réplicas do século 18, utilizando tomografia computadorizada para a calibração. O processo foi viabilizado por doações de fundações de preservação industrial.
Atualmente, o automaton serve como objeto de estudo para instituições como o Instituto Smithsonian, o Museu de Ciência de Londres e o Conservatoire des Arts et Métiers, em Paris. Pesquisadores analisam a peça para aplicar princípios de durabilidade extrema e redução de desperdício em projetos modernos, contrastando a robustez do mecanismo com a obsolescência programada da eletrônica contemporânea.
Tornado o símbolo gráfico do Bowes Museum, o Cisne de Prata continua a atrair visitantes à pequena cidade de Barnard Castle. Além da demonstração do automaton, a instituição mantém coleções de cerâmicas, mobiliário do século 18 e pinturas barrocas.