Cingapura instala sistema de energia solar flutuante para reduzir a dependência de gás importado
Cingapura instalou 122 mil painéis solares no reservatório de Tengeh, com capacidade de 60 megawatts-pico para abastecer 16 mil residências e o Porto de Tuas. A infraestrutura de 45 hectares visa reduzir a dependência de gás natural importado e integrar a meta de 2 gigawatts-pico de energia solar até 2030

Cingapura implementou um sistema de energia solar flutuante no reservatório de Tengeh, localizado no distrito industrial de Tuas, para mitigar a dependência histórica de gás natural importado da Malásia e da Indonésia. A infraestrutura, operada pela Sembcorp Industries, consiste em 122 mil painéis solares distribuídos em dez ilhas fotovoltaicas que cobrem 45 hectares da superfície hídrica. O complexo opera com capacidade de 60 megawatts-pico, volume suficiente para abastecer 16 mil residências e alimentar o bombeamento de água tratada para a região do Porto de Tuas.
A estratégia de instalar painéis sobre a água surge como a principal alternativa viável para a cidade-Estado, que possui apenas 730 quilômetros quadrados de território e alta densidade populacional, limitando a disponibilidade de solo para usinas tradicionais. O projeto de Tengeh integra um plano governamental mais amplo, que visa atingir a marca de 2 gigawatts-pico de energia solar até 2030. Para alcançar esse objetivo, o país precisa expandir sua capacidade em pelo menos 250 megawatts-pico anualmente nos próximos seis anos, partindo dos aproximadamente 750 megawatts-pico instalados em 2024.
Além da geração elétrica, a cobertura dos reservatórios reduz a evaporação da água tratada em cerca de 25%, conforme a agência nacional de águas de Cingapura (PUB), o que diminui a pressão sobre as importações de água da Malásia, regidas por tratado até 2061. Estudos realizados com universidades suíças indicam ainda que a sombra dos painéis reduz a temperatura da água, combatendo a proliferação de algas e melhorando a qualidade do recurso.
No distrito de Tuas, a Sembcorp mantém ainda outra instalação solar de 17,6 megawatts-pico em 10 hectares de terreno temporário. Juntos, os dois sistemas somam mais de 77 megawatts-pico, fornecendo energia para as operações de logística do Porto de Tuas. Este terminal, com investimento previsto de 20 bilhões de dólares ao longo de 25 anos, é um dos maiores projetos portuários do mundo e opera de forma totalmente automatizada, utilizando inteligência artificial e veículos autônomos. A integração de energia limpa tornou-se obrigatória para a infraestrutura crítica do país a partir de 2022.
Tecnicamente, o sistema de Tengeh foi desenvolvido com a agência alemã de pesquisa fotovoltaica, utilizando flutuadores de polietileno de alta densidade e inversores resistentes a calor e umidade. A estrutura foi projetada para suportar chuvas torrenciais e ventos de monção de até 110 quilômetros por hora. O impacto ambiental positivo é mensurado pela anulação de 32 mil toneladas de dióxido de carbono por ano, equivalendo ao plantio de 150 mil árvores nativas.
O Plano Nacional de Energia 2026 prevê a expansão do modelo flutuante para outros reservatórios, a instalação de painéis em fachadas de prédios e a importação de energia solar da Austrália e Indonésia via cabos submarinos. A próxima etapa do governo inclui a implementação de painéis em mar aberto, em parceria com empresas norueguesas.
A tecnologia de Cingapura serve de referência para o Brasil, onde a ANEEL já reconheceu a energia solar flutuante como elegível para leilões a partir de 2026. Empresas como Eletrobras, Cemig e Light avaliaram a viabilidade de projetos similares em reservatórios como o de Furnas, em Minas Gerais, e o de Sobradinho, na Bahia. Apesar do avanço, há alertas sobre a necessidade de mapear melhor os riscos ambientais, especificamente como a redução da luz solar na coluna de água pode afetar microalgas e peixes.