Expansão de data centers nos Estados Unidos provoca aumento nas tarifas de energia elétrica
A expansão de data centers nos EUA gera conflitos locais devido ao alto consumo de água e energia, além de riscos à saúde. O crescimento dessas infraestruturas elevou tarifas elétricas e provocou suspensões de obras em locais como Nova York e Frederick
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A expansão acelerada de data centers nos Estados Unidos tem provocado um aumento nas tensões entre gigantes da tecnologia e comunidades locais. O cenário é marcado por protestos contra a degradação ambiental, o consumo excessivo de recursos naturais e a falta de transparência nos processos de instalação dessas infraestruturas, essenciais para o processamento de dados e o desenvolvimento da inteligência artificial.
Um exemplo crítico ocorre no condado de Frederick, em Maryland. O que começou como um projeto da Amazon expandiu-se para cerca de mil acres além do planejado, avançando sobre terras agrícolas e áreas verdes. Moradores, liderados pela ativista Elizabeth Bauer, denunciam que a proximidade do canteiro de obras com zonas residenciais gera poluição e poeira, agravando quadros de asma na população.
Impacto ambiental e consumo de recursos
A infraestrutura de armazenamento de dados demanda volumes massivos de energia e água. De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, um único centro pode consumir tanta eletricidade quanto 100 mil residências. Com a alta demanda por IA, as novas instalações podem elevar esse consumo em 20 vezes. Atualmente, esses centros representam 4,4% da energia consumida nos EUA, mas projeções do banco Goldman Sachs indicam que esse número pode chegar a 8,5% até o fim de 2027.
A questão hídrica é igualmente alarmante. Algumas unidades podem consumir até 5 milhões de galões de água diariamente — volume equivalente ao gasto de uma cidade com 50 mil habitantes. O problema é acentuado pelo fato de que muitas dessas obras ocorrem em regiões com escassez hídrica, como é o caso de Frederick. Francesca Dominici, professora da Escola de Saúde Pública de Harvard, aponta que as empresas priorizam terrenos baratos e aprovações políticas rápidas, ignorando a crise hídrica local.
Custos energéticos e riscos à saúde
A concentração de data centers tem impactado diretamente o bolso do consumidor. Em estados com alta densidade dessas instalações, os preços da eletricidade subiram 267% nos últimos cinco anos. Hannah Wiseman, professora de direito ambiental da Universidade da Pensilvânia, explica que os custos de construção de novas linhas de transmissão para atender a demanda tecnológica são repassados às tarifas dos usuários.
Além do custo financeiro, há riscos sanitários. Para evitar a sobrecarga da rede elétrica, muitas unidades utilizam geradores a diesel. Em Frederick, o projeto prevê 99 desses equipamentos. A exposição a partículas finas provenientes desses geradores está associada a mortes prematuras, doenças cardiovasculares, respiratórias, neurocognitivas e malformações congênitas, além de prejudicar a fauna e a flora local.
Barreiras regulatórias e a resposta política
O cenário é favorecido por legislações que priorizam o desenvolvimento rápido. No âmbito federal, o presidente Donald Trump reduziu a burocracia para a criação dessas unidades por meio de um decreto de 2025, visando a liderança americana em IA.
Para evitar a resistência popular, muitas empresas impuseram acordos de confidencialidade a autoridades locais, limitando a transparência sobre o impacto dos projetos. Wiseman observa que as empresas de tecnologia têm influenciado legislações estaduais para criar tarifas especiais de energia e restringir o poder de decisão dos municípios.
Reações e perspectivas
Apesar do argumento de que dinamizam a economia, um estudo da Universidade de Michigan revelou que os data centers geram apenas empregos temporários na construção civil, sem criar vagas tecnológicas de longo prazo para a comunidade local.
Diante da insatisfação popular — 71% dos americanos são contra a instalação dessas unidades em suas comunidades, segundo a Gallup —, algumas medidas foram tomadas:
- Nova York tornou-se o primeiro estado a suspender a construção de novos data centers de grande porte por até um ano.
- A Microsoft abandonou o uso de acordos de confidencialidade com governos locais em março para tentar recuperar a confiança dos vizinhos.
- A Meta passou a testar o uso de concreto de baixo carbono em suas obras.
Em Frederick, embora a Suprema Corte de Maryland tenha rejeitado a possibilidade de um referendo sobre a lei de construção, o condado suspendeu temporariamente novas instalações. Ativistas agora depositam esperanças nas próximas eleições para o conselho do condado, buscando candidatos que se oponham à expansão dessas estruturas.