Justiça dos Estados Unidos condena Ismael Zambada à prisão perpétua e confisca 15 bilhões de dólares
O juiz Brian Cogan condenou Ismael "El Mayo" Zambada à prisão perpétua nos Estados Unidos nesta segunda-feira (20). A sentença prevê o confisco de US$ 15 bilhões, valor referente aos lucros do Cartel de Sinaloa
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A condenação à prisão perpétua de Ismael "El Mayo" Zambada, anunciada nesta segunda-feira (20) nos Estados Unidos, encerra a trajetória de um dos líderes mais influentes da história do crime organizado mexicano. A sentença, proferida pelo juiz federal Brian Cogan, inclui o confisco de US$ 15 bilhões, montante estimado como lucro do Cartel de Sinaloa e aceito pelo sentenciado.
O desfecho jurídico de Zambada, que ocorreu após sua captura em 2024 e subsequente admissão de culpa, ecoa a condenação de seu antigo sócio, Joaquín "El Chapo" Guzmán, sentenciado pelo mesmo magistrado há sete anos.
A ascensão e a estrutura do Cartel de Sinaloa
A trajetória de Zambada no narcotráfico começou em 1969, aos 19 anos, com o cultivo de maconha nas montanhas de Sinaloa. Em sua primeira colheita, vendeu 27 quilos da droga por aproximadamente US$ 400. Com o tempo, expandiu sua atuação para o controle de rotas de cocaína vindas da América do Sul com destino aos Estados Unidos.
A parceria com "El Chapo" consolidou-se na década de 1990, após conflitos envolvendo o cartel de Tijuana. Juntos, fundaram o Cartel de Sinaloa, que se tornou a maior organização de tráfico de drogas do mundo. A operação era sustentada por uma estrutura vertical e complexa, que incluía:
- Operadores de lavagem de dinheiro e equipes de segurança;
- Chefes de praça para controle territorial;
- Logística diversificada com o uso de submarinos, lanchas rápidas, aviões e rotas terrestres.
A organização utilizou a corrupção de autoridades e a eliminação de rivais para expandir sua influência global, chegando a rivalizar com o próprio Estado mexicano.
Diferenças de perfil e a queda de "El Mayo"
Apesar da sociedade, Zambada e Guzmán possuíam métodos distintos. Enquanto "El Chapo" cultivava uma imagem pública lendária, marcada por fugas espetaculares de prisões, "El Mayo" manteve um perfil discreto e evitou prisões por décadas.
A queda de Zambada ocorreu em 2024, em uma operação que as autoridades americanas descrevem como uma armadilha. Ele teria sido atraído para uma reunião de negócios por Joaquín Guzmán López, filho de "El Chapo", sendo posteriormente transportado para El Paso, no Texas, e entregue ao governo dos EUA. O incidente provocou tensões diplomáticas entre México e Estados Unidos sobre a legalidade da transferência do traficante.
Fragmentação do crime e novas dinâmicas
A condenação de Zambada simboliza o fim da era dos "grandes chefes" com poder absoluto. Atualmente, o narcotráfico no México passa por um processo de fragmentação. A captura de "El Mayo" desencadeou, inclusive, um conflito interno no Cartel de Sinaloa entre as facções "Los Mayos" e "Los Chapitos".
Essa mudança reflete uma transição para modelos de comando descentralizados e lideranças mais resilientes. Diferente dos antigos líderes, que chegavam a exercer funções quase estatais de saúde e justiça em certas regiões para obter legitimidade, os grupos atuais operam de forma mais local e interconectada.
Impacto na segurança e o mercado de sintéticos
A transição no comando dos cartéis coincide com a mudança no portfólio de drogas, com a ascensão de substâncias sintéticas como o fentanil e a metanfetamina.
Mesmo com a mobilização das Forças Armadas mexicanas no Estado de Sinaloa — sob a gestão de Claudia Sheinbaum e pressão americana para destruir laboratórios — o fornecimento de fentanil permanece inalterado. Esse cenário indica que a estrutura do tráfico se adaptou, surgindo novos atores e locais de produção para suprir a demanda global, independentemente da prisão de figuras históricas como Zambada, Rafael Caro Quintero ou Vicente Carrillo Fuentes.