OMS declara emergência de saúde pública após surto de Ebola na República Democrática do Congo
A OMS declarou emergência de saúde pública internacional após surto de Ebola na província de Ituri, na República Democrática do Congo. O órgão contabiliza 246 casos suspeitos, oito confirmações e 80 mortes, com a propagação do vírus atingindo Uganda
A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou emergência de saúde pública de interesse internacional após a confirmação de um surto de Ebola no leste da República Democrática do Congo. A decisão, tomada pelo diretor-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus em 16 de maio, ocorreu de forma inédita, sem a consulta prévia a um comitê de especialistas, devido à gravidade da situação. O surto, anunciado oficialmente pelas autoridades sanitárias africanas em 15 de maio, já se posiciona entre os maiores da história do país.
O epicentro da crise está na província de Ituri, região remota marcada por conflitos armados e infraestrutura de saúde precária. Até o momento, a OMS contabiliza 246 casos suspeitos, oito confirmações laboratoriais e 80 mortes. No entanto, a magnitude real da epidemia pode ser superior; em Mongbwalu, o ex-prefeito Jean-Pierre Badombo relatou entre 60 e 80 óbitos apenas na cidade, com picos de seis a oito mortes diárias.
A propagação do vírus foi acelerada por uma série de falhas operacionais e diagnósticas. O primeiro caso registrado ocorreu em 24 de abril, em Bunia, capital de Ituri, onde morreu um profissional de saúde com sintomas de febre, vômitos e hemorragia. A morte de um agente de saúde sugere que a infecção já circulava antes desse registro. Além disso, a disseminação foi impulsionada por rituais funerários locais, nos quais a população, acreditando tratar-se de uma doença mística, manipulou corpos que permaneciam contagiosos.
O controle do surto foi comprometido por erros técnicos graves. O laboratório de Bunia realizou testes calibrados para a cepa Zaire do Ebola, mas a variante atual é a Bundibugyo, que não era registrada no Congo desde 2012 e possui taxa de mortalidade entre 25% e 40%. Como a unidade local não dispõe de equipamentos de sequenciamento genético para identificar outras cepas, as amostras que deram negativo para a variante Zaire foram inicialmente descartadas em vez de serem enviadas para análise profunda.
Quando o material foi finalmente encaminhado ao Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica (INRB), em Kinshasa, o transporte falhou: as amostras chegaram a 17°C, quando deveriam estar a 4°C, e em volumes insuficientes (microlitros em vez de mililitros), limitando a capacidade de testagem. Esse cenário resultou em um intervalo crítico de quatro semanas entre os primeiros sintomas do paciente inicial e a confirmação laboratorial, evidenciando a baixa suspeita clínica dos profissionais de saúde.
Essas lacunas permitiram que o vírus se expandisse para áreas controladas por rebeldes e atravessasse a fronteira para Uganda. A crise é agravada por cortes no financiamento internacional e anos de subinvestimento, que fragilizaram a vigilância epidemiológica e deixaram unidades de saúde em Ituri sem kits básicos de proteção individual.