Política

Estados Unidos classificam PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais

29 de Maio de 2026 às 12:09

Os Estados Unidos classificaram o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais a partir de 5 de junho. A medida, tomada após reuniões do senador Flávio Bolsonaro com Donald Trump e Marco Rubio, permite a aplicação de sanções e intervenções militares no Brasil

Estados Unidos classificam PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais
GETTY IMAGES via BBC

O governo dos Estados Unidos classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais. A decisão ocorre após encontros do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com Donald Trump e com o secretário de Estado americano, Marco Rubio. A partir de 5 de junho, as facções serão tratadas por Washington como ameaças à segurança estadunidense, medida que possibilita a imposição de sanções diversas e a promoção de intervenções militares em território brasileiro.

Embora estudiosos definam o PCC e o CV como organizações criminosas movidas por interesses econômicos, sem motivação ideológica, Trump tem contestado essa distinção, repetindo a estratégia adotada no ano passado contra cartéis no México.

Dawisson Belém Lopes, professor de política internacional e comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com trajetória acadêmica na Alemanha, Bélgica e Índia, avalia que a medida pode ter reflexos políticos distintos. De um lado, o senador Flávio Bolsonaro pode ganhar força no debate sobre segurança pública, área em que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva registrou a pior avaliação em pesquisa Datafolha realizada há duas semanas. Por outro lado, o presidente Lula pode argumentar que a decisão representa uma renúncia de soberania e "entreguismo", sugerindo que a medida evidencia a incapacidade do adversário de resolver problemas internos sem auxílio externo.

O professor pondera que a estratégia pode prejudicar o senador caso as sanções atinjam figuras influentes do sistema político e financeiro, especialmente investidores e bancos da Faria Lima que apoiam sua pré-candidatura e que possuam interações com o crime organizado. No ano passado, operações da Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público revelaram um esquema de lavagem de dinheiro do PCC via fundos de investimento e empresas financeiras da Faria Lima, movimentando cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. No campo político, o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União), foi preso sob suspeita de vazar sigilos e obstruir investigações contra o Comando Vermelho.

As sanções americanas poderiam seguir o modelo da Lei Magnitsky, aplicada a casos de corrupção e violações de direitos humanos, como ocorreu no ano passado com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Contudo, Belém Lopes estima que as sanções financeiras tendam a ser brandas, citando que bancos brasileiros resistiram a pressões dos Estados Unidos para romper negócios com Moraes, seguindo orientações do Banco Central e do Ministério da Fazenda.

O professor destaca que a relação atual entre Brasília e Washington é civilizada e com tensão controlada, diferindo do período do "tarifaço". Além disso, compara a situação com a do México, onde a presidente Claudia Sheinbaum evitou retaliações profundas ao atender demandas de extradição e reforço de fronteiras. Para o docente, o impacto no Brasil tende a ser menor que o mexicano, visto que a China é o maior parceiro comercial brasileiro, operando com mais que o dobro do volume de comércio dos Estados Unidos.

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