Anvisa alerta que a retatrutida não possui registro sanitário e circula ilegalmente no Brasil
A Anvisa alertou que a retatrutida, substância para obesidade e diabetes tipo 2, não possui registro sanitário no Brasil ou no exterior. A molécula circula ilegalmente, com apreensões que superaram R$ 11 milhões em Foz do Iguaçu no primeiro trimestre de 2026. O acesso legal ocorre apenas via estudos clínicos da Eli Lilly
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta formal informando que a retatrutida, substância em desenvolvimento para o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, não possui registro sanitário no Brasil ou em qualquer outro país. Atualmente, o único meio legal de acesso à molécula é por meio de estudos clínicos conduzidos pela farmacêutica Eli Lilly.
Apesar da ausência de bula aprovada ou autorização de venda, a substância tem circulado ilegalmente em redes sociais, sites e através de contrabando. A gravidade do cenário é evidenciada pelo volume de apreensões feitas pela Receita Federal e pela Anvisa na fronteira de Foz do Iguaçu: apenas no primeiro trimestre de 2026, foram retidos mais de R$ 11 milhões em produtos, valor que já supera todo o montante apreendido durante o ano de 2025.
Riscos do mercado paralelo e falsificações
A comercialização irregular, muitas vezes impulsionada por eventos com influenciadores e originada no Paraguai, apresenta perigos severos à saúde. Como a retatrutida não é fabricada industrialmente, as "canetas" vendidas ilegalmente utilizam insumos de produções alternativas que não seguem normas de patente ou rigor técnico.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), os principais riscos incluem:
- Contaminação: Possibilidade de presença de bactérias, endotoxinas e componentes estranhos por falta de esterilidade.
- Reações Imunológicas: Risco de o organismo desenvolver respostas alérgicas graves à molécula.
- Instabilidade Térmica: A falta de refrigeração adequada pode gerar compostos tóxicos para o cérebro, coração e fígado.
- Complicações Clínicas: Aumento da chance de pancreatite e formação de cálculos na vesícula devido à perda de peso acelerada (acima de 1 kg por semana) sem monitoramento médico.
A Eli Lilly classifica esse mercado como criminoso, destacando que produtos falsificados não oferecem garantia de composição ou segurança.
Mecanismo de ação e resultados clínicos
A retatrutida pertence à mesma classe de medicamentos que a semaglutida e a tirzepatida, mas possui um diferencial técnico: ela atua em três receptores simultaneamente (GLP-1, GIP e glucagon). Enquanto os dois primeiros sinalizam saciedade ao cérebro e controlam a insulina, o glucagon estimula o gasto energético do corpo, inclusive em repouso.
Dados publicados na revista The Lancet e apresentados no congresso da Associação Americana de Diabetes demonstram a eficácia da molécula em ambiente controlado:
- Perda de peso: No estudo de fase 3 TRIUMPH-1, adultos com obesidade que utilizaram a dose de 12 mg perderam, em média, 28,3% do peso corporal (até 31,9 kg) em 80 semanas. Em casos de obesidade grave, a perda média chegou a 38,5 kg após 104 semanas.
- Diabetes e Comorbidades: Pacientes com diabetes tipo 2 apresentaram redução drástica no açúcar no sangue, além de melhoras na apneia do sono (redução de 60,6% na gravidade) e na dor de osteoartrite no joelho (redução de até 73,1%).
- Saúde Cardiovascular: Houve melhora em indicadores de pressão arterial, triglicerídeos e circunferência abdominal.
Os efeitos colaterais mais frequentes relatados nos estudos foram gastrointestinais, como náuseas, vômitos, diarreia e constipação, além de infecções urinárias leves a moderadas.
Processo de regulamentação
A substância encontra-se atualmente na fase 3 de estudos clínicos. A Anvisa esclarece que a conclusão dessa etapa é fundamental para definir a dose ideal, a relação benefício-risco, possíveis interações medicamentosas e a manutenção do efeito a longo prazo.
Somente após a finalização e avaliação desses estudos é que a Eli Lilly poderá solicitar o registro sanitário, que envolverá a análise do processo de fabricação e do controle de qualidade da planta industrial. A farmacêutica afirmou que qualquer especulação sobre prazos de comercialização é prematura.
Para quem busca tratamento, a recomendação das autoridades sanitárias e médicas é ignorar ofertas de retatrutida fora dos protocolos oficiais. Opções já registradas e seguras no Brasil, como o Ozempic, Wegovy e Mounjaro, devem ser avaliadas individualmente por um médico.