Saúde

Apenas 26 de 165 mil amostras de células-tronco armazenadas em bancos privados foram utilizadas

24 de Julho de 2026 às 06:11

Relatório da Anvisa de 2024 indica que apenas 26 das quase 165 mil células-tronco do cordão umbilical armazenadas em bancos privados no Brasil desde 2003 foram utilizadas. A rede pública BrasilCord suspendeu coletas de doação não aparentada e decidiu não ampliar seu acervo devido aos custos de manutenção e à maior oferta de doadores adultos via Redome

A coleta e o armazenamento de células-tronco do cordão umbilical são frequentemente apresentados como um "seguro biológico" para recém-nascidos, mas dados oficiais revelam que a probabilidade de uso desse material é extremamente baixa. De acordo com o 15º relatório da Anvisa, publicado em 2024, dos quase 165 mil exemplares armazenados em bancos privados no Brasil desde 2003, apenas 26 foram efetivamente utilizados.

O processo de coleta e preservação

O procedimento ocorre logo após o nascimento, durando cerca de quinze minutos. Enquanto o bebê recebe os primeiros cuidados, a equipe de terapia celular aspira aproximadamente 80 mililitros de sangue de uma veia do cordão e retira um fragmento de dez centímetros do tecido umbilical.

Para garantir a viabilidade das células, o material é transportado em contêineres com temperatura controlada, evitando raios-X para não danificar as amostras, e deve chegar ao laboratório em até 48 horas. O processo de congelamento é rigoroso:

  • O sangue é lavado e recebe um anticongelante.
  • O resfriamento ocorre gradualmente (um grau por minuto) até atingir 120°C negativos.
  • O armazenamento final acontece em tanques de nitrogênio a 196°C negativos, sob pressão positiva.

Indicações médicas e limitações

As células do cordão são valorizadas por serem imunologicamente imaturas, o que reduz a chance de rejeição grave em transplantes. O sangue é utilizado principalmente como fonte para transplante de medula óssea no tratamento de leucemias, linfomas, anemias hereditárias (como a falciforme e a talassemia) e imunodeficiências. Já as células mesenquimais, extraídas do tecido do cordão, são estudadas para a regeneração de fígado, cartilagem e ossos.

Apesar do potencial, o uso do próprio material guardado apresenta obstáculos biológicos. Em casos de leucemia, o uso de células de um doador externo é preferível, pois promove o "efeito enxerto contra a leucemia", onde o novo sistema de defesa destrói células cancerosas remanescentes. Em doenças genéticas, como a anemia falciforme, as células do próprio cordão já carregam o defeito hereditário, tornando o transplante ineficaz sem a devida edição genética.

Além disso, existe a limitação de volume: a quantidade de células colhidas no nascimento pode ser insuficiente para as necessidades de um paciente adulto ou adolescente.

Custos e a crise da rede pública

O armazenamento privado envolve um custo médio de R$ 4 mil pela coleta e cerca de R$ 1 mil anuais para manutenção. Em contrapartida, a doação para bancos públicos é gratuita, mas a rede BrasilCord, coordenada pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), enfrenta um processo de retração.

Desde 2020, as coletas de doação não aparentada foram suspensas e não foram retomadas. Em 2024, nenhum dos 15 bancos públicos da rede coletou bolsas para esse fim. Em janeiro de 2025, o Inca e a Coordenação-Geral do Sistema Nacional de Transplantes decidiram não abrir novos bancos nem ampliar o acervo, citando o alto custo de manutenção e a queda na demanda por esse tipo de transplante.

O Ministério da Saúde justifica que a expansão do Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) aumentou a oferta de doadores adultos, reduzindo a dependência do sangue de cordão. Em 2023, apenas quatro dos 369 transplantes não aparentados realizados no país utilizaram unidades da rede pública de cordão.

Perspectivas futuras

A viabilidade do material congelado é alta, com estudos indicando células potentes mesmo após 30 anos de armazenamento. A grande aposta para o futuro reside nas terapias gênicas, que utilizam ferramentas como o CRISPR para corrigir trechos do DNA em laboratório.

Se essa tecnologia avançar para utilizar as células do cordão estocado, o material poderia se tornar útil inclusive para tratar as doenças genéticas que hoje contraindicam seu uso. No momento, porém, a medicina considera o armazenamento privado justificável apenas para famílias que já possuam filhos com doenças tratáveis por transplante.

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