Saúde

Brasil registra primeira alta no tabagismo desde 2007 impulsionada por novos produtos de nicotina

29 de Maio de 2026 às 12:11

O Brasil registrou a primeira alta no tabagismo desde 2007, com aumento de 25% no percentual de fumantes segundo a pesquisa Vigitel. O crescimento é impulsionado por novos produtos de nicotina, como sachês e cigarros eletrônicos, com foco no público jovem

Brasil registra primeira alta no tabagismo desde 2007 impulsionada por novos produtos de nicotina
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O Brasil registrou, após mais de dez anos de declínio, um novo crescimento no tabagismo. Dados da pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, indicam que o percentual de fumantes subiu cerca de 25% em termos relativos, a primeira alta registrada desde 2007. Esse cenário é impulsionado pela diversificação de produtos de nicotina promovida por multinacionais do setor, com foco estratégico no público jovem, conforme aponta um estudo recomendado pela ONG ACT Promoção da Saúde.

A indústria expandiu seu portfólio para além dos cigarros eletrônicos, investindo em sachês de nicotina (*nicotine pouches*). Esses pequenos saquinhos, introduzidos no mercado em 2018, são colocados entre a gengiva e o lábio para que a substância seja absorvida pela mucosa oral. Para atrair consumidores, os produtos utilizam embalagens colecionáveis, sabores e aditivos. No entanto, a Anvisa não registrou tais itens para comercialização regular, tornando a venda desses sachês irregular no Brasil.

A potência desses novos dispositivos supera a do cigarro convencional. Enquanto o cigarro tradicional possui um miligrama de nicotina, os sachês variam de 4 a 18 miligramas, e os cigarros de tabaco aquecido entregam 4,6 vezes mais a substância. O pneumologista Paulo Corrêa, autor de um relatório da ACT, explica que essa concentração elevada acelera a dependência química, especialmente em adolescentes. O médico ressalta que a rotulagem nem sempre reflete a quantidade real de nicotina e que, nos Estados Unidos, já houve registros de intoxicações e overdoses em serviços de urgência causadas por esses produtos.

A vulnerabilidade dos jovens é potencializada por fatores biológicos e sociais. A região frontal do cérebro, responsável pelo controle de impulsos, ainda está em desenvolvimento na adolescência, o que favorece a busca por prazer imediato. Esse quadro é agravado por estratégias de marketing digital, influência de redes sociais e a necessidade de pertencimento a grupos, criando um ambiente propício para a experimentação.

O especialista alerta que a indústria promove esses dispositivos como alternativas seguras, mas o tabaco aquecido gera substâncias cancerígenas e compostos que reforçam o vício. Diferente do que é divulgado, esses aparelhos não produzem apenas vapor de água, mas sim uma mistura complexa que pode elevar a pressão arterial e a frequência cardíaca.

Outra tendência observada é o "poliuso", em que o consumidor utiliza diferentes tipos de produtos de nicotina simultaneamente, incluindo itens dissolvíveis semelhantes a produtos de higiene oral. Em pesquisa conduzida por Corrêa, cerca de 14% dos adolescentes entre 13 e 17 anos utilizavam todos os seis tipos de produtos avaliados, configurando um quadro de poliadicção.

Além da dependência, o uso desses derivados pode causar envelhecimento precoce da pele, disfunção erétil e impactos respiratórios e cardiovasculares. O aumento do consumo juvenil projeta uma sobrecarga futura nos sistemas de saúde devido ao crescimento de doenças crônicas e câncer.

Sobre a regulação, o pneumologista esclarece que a Anvisa já regulamentou cigarros eletrônicos e de tabaco aquecido ao proibi-los, baseando-se em evidências científicas. Para ele, os custos sociais e sanitários do tabagismo são superiores à arrecadação de impostos do setor. Como medida preventiva, a orientação é que pais e responsáveis monitorem os conteúdos consumidos por adolescentes e que os jovens mantenham uma postura crítica diante de influenciadores e do marketing da indústria, evitando a iniciação ao uso de substâncias desenhadas para gerar dependência.

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