Saúde

Estados Unidos registram o maior avanço do sarampo nos últimos 35 anos

24 de Julho de 2026 às 09:10

Os Estados Unidos registraram 2.295 casos de sarampo em seis meses, atingindo 44 estados. A alta na incidência ocorre com a taxa de vacinação infantil abaixo de 93%, afetando principalmente pessoas não imunizadas

Estados Unidos registram o maior avanço do sarampo nos últimos 35 anos
REUTERS/Jayla Whitfield-Anderson

Os Estados Unidos enfrentam o maior avanço do sarampo nos últimos 35 anos. Em apenas seis meses, o país contabilizou 2.295 casos, superando o total de 2.289 registros de todo o ano de 2025. A doença já atingiu 44 dos 50 estados americanos, impulsionada principalmente por surtos ocorridos no início do ano em Utah e na Carolina do Sul.

Impacto da baixa cobertura vacinal

A crise sanitária é reflexo direto da queda na imunização. Atualmente, a taxa de vacinação em crianças pequenas está abaixo de 93%, índice inferior aos 95% registrados em 2020. Este patamar de 95% é o limite técnico necessário para assegurar a proteção coletiva contra a enfermidade.

A falta de imunização é o fator predominante nos registros atuais: 95% dos infectados são pessoas não vacinadas ou que possuem situação vacinal desconhecida. O perfil dos pacientes revela que a vulnerabilidade não se restringe à primeira infância:

  • Adultos: representam cerca de 30% dos casos;
  • Jovens entre 5 e 17 anos: compõem quase metade dos infectados;
  • Crianças menores de cinco anos: correspondem a menos de um quinto do total.

Em 2025, a doença causou três óbitos, sendo duas crianças que não haviam sido imunizadas. O sarampo provoca febre, erupções cutâneas e sintomas respiratórios, podendo evoluir para quadros graves de encefalite, cegueira e pneumonia.

Histórico e a desinformação científica

O país havia declarado a erradicação do sarampo nove anos após 1991 — ano em que se registrou o recorde de 9.600 casos —, devido à expansão da vacinação. Embora a transmissão contínua tenha cessado por 12 meses na época, a doença persistiu em casos isolados e surtos em 2014 e 2019, inicialmente restritos a comunidades isoladas.

A resistência atual às vacinas tem raízes em um artigo publicado na revista The Lancet no ano 2000, que sugeria erroneamente um vínculo entre a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) e o autismo. Apesar de ter sido retirado por fraude científica e falhas metodológicas, o conteúdo propagou-se via internet.

Esse cenário foi agravado por grupos antivacina e figuras públicas. Robert Kennedy Jr., atual secretário de Saúde, fundou em 2011 a organização Children's Health Defense, responsável por 54% do conteúdo antivacina no Facebook em 2020.

Contexto político e mudanças na saúde pública

A desconfiança em relação aos imunizantes intensificou-se durante a pandemia de Covid-19. Entre eleitores republicanos, a crença de que os pais deveriam ter o direito de não vacinar os filhos saltou de 20%, em 2019, para 44% em 2022, segundo a Kaiser Family Foundation.

Sob a gestão de Robert Kennedy Jr., as estruturas de saúde pública federais passaram por reformulações, incluindo centenas de demissões nos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). O Comitê Consultivo sobre Práticas de Imunização também foi alterado, com a nomeação de membros questionados por ceticismo vacinal ou falta de experiência.

As mudanças administrativas resultaram em cortes diretos nas recomendações de saúde:

  • Em janeiro deste ano, a lista de vacinas recomendadas para crianças caiu de 17 para 11;
  • Foram excluídos imunizantes contra rotavírus, bronquiolite, meningococo, hepatites A e B, além da gripe;
  • A vacina contra a Covid-19 deixou de ser recomendada meses antes;
  • Houve a interrupção de investimentos em imunizantes baseados em RNA mensageiro.

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