Novas diretrizes internacionais priorizam a qualidade de vida e a segurança no tratamento da obesidade
Novas diretrizes de três entidades europeias propõem que o tratamento da obesidade com incretinas priorize a qualidade de vida e a segurança em vez de apenas a redução de peso. O consenso recomenda a individualização de doses, suporte psicológico e a combinação de dieta proteica com exercícios de força para evitar a *sarcopenia
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/t/B/KMVgqNQOypWhK0v6BSdw/edicao-imagens-g1-23-.png)
Novas diretrizes internacionais propõem uma mudança de foco no tratamento da obesidade com o uso de medicamentos da classe das incretinas, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro. O objetivo agora deixa de ser apenas a redução do peso na balança para priorizar a segurança do paciente a longo prazo e a manutenção da qualidade de vida.
O consenso, publicado no periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology, foi elaborado por três entidades europeias: a European Association for the Study of Obesity (EASO), a European Federation of the Associations of Dietitians (EFAD) e a European Coalition for People Living with Obesity (ECPO). O documento orienta que o emagrecimento não seja a única meta, integrando cuidados nutricionais, físicos e psicológicos ao processo.
Ajuste de doses e critérios para interrupção
De acordo com as novas recomendações, atingir a dose máxima prevista em bula não deve ser um objetivo automático. A dosagem deve ser individualizada com base na resposta clínica de cada paciente; aqueles que apresentam saciedade e perda de peso adequada com doses menores não precisam necessariamente de aumentos medicamentosos.
A decisão de reduzir, pausar ou interromper o tratamento deve ser compartilhada entre médico e paciente, considerando os seguintes sinais de alerta:
- Vômitos e náuseas persistentes;
- Dificuldade de hidratação;
- Perda de peso excessivamente rápida;
- Sinais de desnutrição ou incapacidade de ingerir nutrientes suficientes.
A atenção deve ser redobrada caso a ingestão alimentar permaneça abaixo de 800 calorias por dia por um período prolongado. A interrupção do uso também pode ocorrer quando a meta de peso é atingida, quando a tolerância ao fármaco diminui ou em casos de idosos que já alcançaram um patamar de peso saudável.
Preservação da massa muscular e atividade física
Um ponto central do consenso é o alerta sobre a perda de massa magra, que pode levar à sarcopenia (redução da força e quantidade muscular), resultando em fraqueza e limitações físicas. Para mitigar esse risco, recomenda-se:
- Ingestão proteica: Consumo diário de 1 a 1,5 grama de proteína por quilo de peso ajustado, com um mínimo de 60 gramas por dia. O uso de suplementos é indicado quando a dieta não supre essa demanda.
- Exercícios de força: A prática de musculação é agora considerada peça central da estratégia terapêutica.
Em pacientes idosos, a funcionalidade do músculo — como a capacidade de levantar de uma cadeira sem apoio ou a força de preensão palmar — é considerada mais relevante do que a quantidade de massa muscular, servindo inclusive como marcador de risco de mortalidade.
Nutrição e riscos metabólicos
O documento ressalta que a redução do apetite não deve comprometer a qualidade nutricional. A dieta deve priorizar alimentos densos em nutrientes, como grãos integrais, legumes, verduras e frutas.
O emagrecimento acelerado e sem monitoramento pode causar anemia, pancreatite e a formação de cálculos na vesícula. Para grupos vulneráveis — como idosos, pessoas com histórico de transtornos alimentares, desnutrição ou cirurgia bariátrica —, recomenda-se um acompanhamento rigoroso com exames de hemograma e dosagem de ferro, zinco, vitamina D, ácido fólico e vitaminas do complexo B (B12 e tiamina). A ingestão inferior a 1.200 calorias diárias já indica a necessidade de avaliação especializada.
Saúde mental e o conceito de "food noise"
Pela primeira vez, um consenso internacional aborda o food noise (ruído alimentar). Os medicamentos ajudam a silenciar pensamentos intrusivos sobre comida, permitindo que o paciente coma por fome física e não por estímulos emocionais.
Contudo, essa ruptura do vínculo emocional com a comida pode gerar dificuldades na reconstrução de hábitos. Por isso, o suporte psicológico é recomendado, especialmente para quem possui histórico de transtornos alimentares, a fim de desenvolver novas formas de conexão social e lazer. Além disso, é necessário monitorar se a medicação impacta negativamente sintomas de depressão e ansiedade.
Estratégias pós-tratamento
Para evitar o reganho de peso após a interrupção do medicamento, o consenso sugere a manutenção de um conjunto de hábitos:
- Prática regular de exercícios físicos para sustentar o gasto energético;
- Dieta rica em proteínas, carboidratos complexos e gorduras insaturadas, evitando ultraprocessados;
- Adoção de novos comportamentos e consultas regulares com equipe multidisciplinar.
Em casos específicos, pode-se discutir a manutenção do tratamento com doses reduzidas ou a substituição por fármacos mais acessíveis para garantir a estabilidade do peso a longo prazo.