Saúde

Novas diretrizes internacionais priorizam a qualidade de vida e a segurança no tratamento da obesidade

19 de Julho de 2026 às 06:06

Novas diretrizes de três entidades europeias propõem que o tratamento da obesidade com incretinas priorize a qualidade de vida e a segurança em vez de apenas a redução de peso. O consenso recomenda a individualização de doses, suporte psicológico e a combinação de dieta proteica com exercícios de força para evitar a *sarcopenia

Novas diretrizes internacionais priorizam a qualidade de vida e a segurança no tratamento da obesidade
Divulgação

Novas diretrizes internacionais propõem uma mudança de foco no tratamento da obesidade com o uso de medicamentos da classe das incretinas, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro. O objetivo agora deixa de ser apenas a redução do peso na balança para priorizar a segurança do paciente a longo prazo e a manutenção da qualidade de vida.

O consenso, publicado no periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology, foi elaborado por três entidades europeias: a European Association for the Study of Obesity (EASO), a European Federation of the Associations of Dietitians (EFAD) e a European Coalition for People Living with Obesity (ECPO). O documento orienta que o emagrecimento não seja a única meta, integrando cuidados nutricionais, físicos e psicológicos ao processo.

Ajuste de doses e critérios para interrupção

De acordo com as novas recomendações, atingir a dose máxima prevista em bula não deve ser um objetivo automático. A dosagem deve ser individualizada com base na resposta clínica de cada paciente; aqueles que apresentam saciedade e perda de peso adequada com doses menores não precisam necessariamente de aumentos medicamentosos.

A decisão de reduzir, pausar ou interromper o tratamento deve ser compartilhada entre médico e paciente, considerando os seguintes sinais de alerta:

  • Vômitos e náuseas persistentes;
  • Dificuldade de hidratação;
  • Perda de peso excessivamente rápida;
  • Sinais de desnutrição ou incapacidade de ingerir nutrientes suficientes.

A atenção deve ser redobrada caso a ingestão alimentar permaneça abaixo de 800 calorias por dia por um período prolongado. A interrupção do uso também pode ocorrer quando a meta de peso é atingida, quando a tolerância ao fármaco diminui ou em casos de idosos que já alcançaram um patamar de peso saudável.

Preservação da massa muscular e atividade física

Um ponto central do consenso é o alerta sobre a perda de massa magra, que pode levar à sarcopenia (redução da força e quantidade muscular), resultando em fraqueza e limitações físicas. Para mitigar esse risco, recomenda-se:

  1. Ingestão proteica: Consumo diário de 1 a 1,5 grama de proteína por quilo de peso ajustado, com um mínimo de 60 gramas por dia. O uso de suplementos é indicado quando a dieta não supre essa demanda.
  2. Exercícios de força: A prática de musculação é agora considerada peça central da estratégia terapêutica.

Em pacientes idosos, a funcionalidade do músculo — como a capacidade de levantar de uma cadeira sem apoio ou a força de preensão palmar — é considerada mais relevante do que a quantidade de massa muscular, servindo inclusive como marcador de risco de mortalidade.

Nutrição e riscos metabólicos

O documento ressalta que a redução do apetite não deve comprometer a qualidade nutricional. A dieta deve priorizar alimentos densos em nutrientes, como grãos integrais, legumes, verduras e frutas.

O emagrecimento acelerado e sem monitoramento pode causar anemia, pancreatite e a formação de cálculos na vesícula. Para grupos vulneráveis — como idosos, pessoas com histórico de transtornos alimentares, desnutrição ou cirurgia bariátrica —, recomenda-se um acompanhamento rigoroso com exames de hemograma e dosagem de ferro, zinco, vitamina D, ácido fólico e vitaminas do complexo B (B12 e tiamina). A ingestão inferior a 1.200 calorias diárias já indica a necessidade de avaliação especializada.

Saúde mental e o conceito de "food noise"

Pela primeira vez, um consenso internacional aborda o food noise (ruído alimentar). Os medicamentos ajudam a silenciar pensamentos intrusivos sobre comida, permitindo que o paciente coma por fome física e não por estímulos emocionais.

Contudo, essa ruptura do vínculo emocional com a comida pode gerar dificuldades na reconstrução de hábitos. Por isso, o suporte psicológico é recomendado, especialmente para quem possui histórico de transtornos alimentares, a fim de desenvolver novas formas de conexão social e lazer. Além disso, é necessário monitorar se a medicação impacta negativamente sintomas de depressão e ansiedade.

Estratégias pós-tratamento

Para evitar o reganho de peso após a interrupção do medicamento, o consenso sugere a manutenção de um conjunto de hábitos:

  • Prática regular de exercícios físicos para sustentar o gasto energético;
  • Dieta rica em proteínas, carboidratos complexos e gorduras insaturadas, evitando ultraprocessados;
  • Adoção de novos comportamentos e consultas regulares com equipe multidisciplinar.

Em casos específicos, pode-se discutir a manutenção do tratamento com doses reduzidas ou a substituição por fármacos mais acessíveis para garantir a estabilidade do peso a longo prazo.

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