Sociedades médicas e Anvisa alertam que soroterapia para fins estéticos não possui respaldo científico
Sociedades médicas e a Anvisa alertam que a soroterapia para fins estéticos ou de bem-estar em pessoas saudáveis não possui evidências de segurança e eficácia. O procedimento é indicado apenas para casos clínicos específicos, como doenças de absorção nutricional ou desidratação grave. O uso indiscriminado pode causar infecções, reações alérgicas e sobrecarga renal ou hepática
A crescente oferta de soroterapia em clínicas de estética, prometendo benefícios como rejuvenescimento, aumento da imunidade e recuperação corporal, não encontra respaldo científico para aplicação em pessoas saudáveis. Embora a técnica de infusão intravenosa seja consolidada na medicina, as principais sociedades médicas do país alertam que a utilização do procedimento para fins estéticos ou de bem-estar geral carece de evidências de eficácia e segurança.
A soroterapia consiste na administração de vitaminas, minerais, medicamentos ou nutrientes diretamente na corrente sanguínea. O objetivo técnico dessa via é ignorar o sistema digestivo, sendo indicada apenas quando o organismo não consegue absorver nutrientes pelo intestino ou necessita de reposição imediata.
Indicações clínicas e riscos do procedimento
O uso da terapia intravenosa é restrito a casos específicos e mapeados, como:
- Doenças que comprometem a absorção nutricional, a exemplo da retocolite ulcerativa e a doença de Crohn;
- Períodos pós-cirúrgicos com remoção de partes do intestino;
- Quadros graves de desidratação;
- Deficiências nutricionais comprovadas por exames.
Fora dessas condições, a punção venosa apresenta riscos desnecessários. O processo de injetar substâncias pode causar inflamações nas veias, reações alérgicas, infecções e complicações decorrentes do manuseio dos produtos. Além disso, a administração de doses excessivas de nutrientes pode sobrecarregar os rins e o fígado, além de provocar náuseas, vômitos e alterações neurológicas.
Sobre a sensação de melhora relatada por alguns pacientes, Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e endocrinologista do Hospital Israelita Albert Einstein, explica que isso pode ser resultado de um efeito placebo ou da presença de substâncias como estimulantes e corticoides diluídos no soro, que geram um alívio temporário sem que o paciente tenha ciência do conteúdo aplicado.
Posicionamento de órgãos reguladores e sociedades médicas
A Anvisa afirmou que não há evidências de que a soroterapia seja segura ou eficaz para prevenir doenças, melhorar a saúde ou elevar o bem-estar de indivíduos saudáveis, devendo o uso ser limitado a situações clínicas definidas. No mesmo sentido, a Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) declarou que a chamada "soroterapia da beleza" não integra os procedimentos da especialidade.
Outras entidades também se manifestaram contra a prática indiscriminada:
- A SBEM, a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) ressaltam que injetáveis devem seguir normas éticas, sanitárias e evidências científicas;
- O Conselho Federal de Biomedicina esclareceu que tal procedimento não faz parte das competências do biomédico.
Recomendações para a preservação da saúde
Especialistas, incluindo o reumatologista Adérito Cruz, conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal, orientam a desconfiança diante de promessas multifuncionais sem estudos clínicos. A recomendação é que, antes de qualquer infusão, o paciente verifique a existência de indicação médica individual, a regularidade sanitária dos produtos e a habilitação do profissional.
Para a manutenção da saúde e prevenção do envelhecimento em pessoas saudáveis, as estratégias com resultados comprovados permanecem sendo a atividade física, o sono adequado, a alimentação equilibrada e o acompanhamento médico regular.