Mundo

Marrocos planeja suprir 60% da água potável com usinas de dessalinização até 2030

15 de Abril de 2026 às 08:06

Marrocos amplia a rede de dessalinização, barragens e transferência de recursos hídricos. O governo prevê chegar a 1,7 bilhão de metros cúbicos anuais e 60% de suprimento potável via dessalinização até 2030. Em fevereiro de 2026, o nível das barragens atingiu 70% após precipitações

Marrocos está reestruturando sua infraestrutura hídrica para enfrentar a escassez prolongada de água, integrando a construção de usinas de dessalinização, barragens e sistemas de transferência de recursos entre diferentes regiões do território. A estratégia visa garantir o abastecimento de centros urbanos e áreas agrícolas após anos de chuvas irregulares que pressionaram rios, aquíferos e sistemas de distribuição.

A crise hídrica impactou diversos setores da economia local. O ministro da Agricultura relatou que o efetivo pecuário do país recuou 38% em nove anos, reflexo de estiagens consecutivas e do baixo volume armazenado nas barragens, cenário que resultou na alta dos preços de alimentos e dificuldades no campo. O Banco Mundial classifica Marrocos como um dos países com maior pressão sobre os recursos hídricos, com uma disponibilidade atual de 620 metros cúbicos por pessoa ao ano, com risco de queda para menos de 500 metros cúbicos até 2030, patamar que indica escassez severa.

Para reverter esse quadro, o governo adotou a dessalinização — processo de retirada de sais da água do mar via membranas de osmose reversa — como pilar da política nacional. Segundo o ministro da Água, Nizar Baraka, o país opera 17 usinas, possui quatro em construção e planeja a implementação de outras nove. A meta é alcançar uma capacidade de 1,7 bilhão de metros cúbicos por ano até 2030. Em dezembro de 2025, Baraka informou que a tecnologia já supre 25% da água potável consumida, com a intenção de elevar essa participação para 60% até 2030. Entre os projetos, destaca-se a unidade de Tiznit, no sul, com previsão de 350 milhões de metros cúbicos anuais, além de novas instalações em Tantan e Rabat.

Devido ao alto consumo de energia para o tratamento e bombeamento da água, Marrocos vinculou a gestão hídrica ao setor elétrico. Em maio de 2025, foi anunciado um acordo para a criação de uma linha de transmissão de 1.400 quilômetros e 3.000 megawatts, transportando energia renovável do sul para outras regiões. A integração visa reduzir os custos operacionais das usinas, já que o preço final da água dessalinizada está diretamente ligado ao custo da eletricidade.

A estratégia de distribuição também inclui a transferência de água entre bacias para compensar a irregularidade das chuvas no território. Um corredor já conecta o noroeste, região com maior oferta, a Casablanca e Rabat. A previsão é expandir essa rede até 2030 para reforçar as barragens que atendem as zonas agrícolas de Tadla e Doukkala.

Paralelamente, o governo revisou a política de uso da água no campo. Em junho de 2025, Nizar Baraka admitiu que houve um descompasso entre o ritmo de expansão da política agrícola e a disponibilidade hídrica, agravado pelas mudanças climáticas. Como a água dessalinizada possui custo elevado e as áreas de plantio são extensas, ela não será destinada ao cultivo de trigo, sendo priorizada para o consumo urbano e segmentos específicos da agricultura. Para conter a pressão sobre lençóis subterrâneos, o governo proibiu o cultivo de melões em Tata e reduziu a produção em 75% em Zagora.

Apesar do planejamento de longo prazo, o sistema hídrico obteve alívio com as chuvas do inverno de 2025 para 2026. Em janeiro de 2026, Baraka informou ao Parlamento que a seca de sete anos foi encerrada, com precipitações 17% acima da média sazonal e 95% superiores ao ano anterior. A taxa média de enchimento das barragens, que estava em 46% em janeiro, subiu para aproximadamente 70% em fevereiro de 2026.

Notícias Relacionadas