Saúde

Falta de ciclofosfamida no Brasil exige a alteração de protocolos oncológicos e reumatológicos

20 de Abril de 2026 às 18:38

A falta de ciclofosfamida endovenosa no Brasil em 2026, motivada por problemas na produção de um parceiro da Baxter, afeta tratamentos de câncer e doenças autoimunes. O Ministério da Saúde comprou 80 mil frascos-ampola e 140 mil comprimidos do fármaco para suprir a demanda. A regularização do suprimento está prevista para junho de 2026

A escassez de ciclofosfamida endovenosa no Brasil, registrada ao longo de 2026, impacta a condução de tratamentos para doenças autoimunes graves e quadros oncológicos. A falta do fármaco obriga a reestruturação imediata de protocolos clínicos, afetando pacientes com vasculites, lúpus e câncer de mama.

A interrupção técnica em uma unidade fabril parceira da Baxter, empresa responsável pelo medicamento no país, comprometeu a produção global. Embora a fabricação tenha sido retomada, a operação segue com capacidade reduzida, limitando a oferta. Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), associa a crise à vulnerabilidade de medicamentos antigos e de baixo custo, que possuem poucos fabricantes mundiais, tornando a cadeia produtiva suscetível a interrupções.

Para mitigar a falta, a versão oral da ciclofosfamida tem sido utilizada, embora não seja aplicável a todos os casos. Em tratamentos de câncer de mama triplo-negativo, a carboplatina é a alternativa viável. Outras estratégias incluem a inversão da ordem de etapas terapêuticas, priorizando fases que não dependam do fármaco, ou a substituição total do esquema por outras combinações quimioterápicas. Nos casos de transplantes de medula óssea e tumores pediátricos, a orientação é a priorização rigorosa dos estoques remanescentes.

Na reumatologia, a substituição é complexa devido ao papel central do agente alquilante na indução da remissão de doenças graves. O micofenolato mofetil é indicado para lúpus com comprometimento renal, enquanto o rituximabe é empregado em vasculites para reduzir a atividade de células do sistema imunológico. Azatioprina, tacrolimo e ciclosporina também compõem as opções, dependendo do perfil do paciente. Contudo, a Sociedade Brasileira de Reumatologia ressalta que a equivalência clínica dessas trocas não é universal, o que exige avaliação individualizada.

Stephen Stefani, da Americas Health Foundation, afirma que a ausência dessa droga de base altera a lógica terapêutica e pode elevar custos ou reduzir a eficácia. O cenário amplia desigualdades, especialmente no sistema público de saúde, uma vez que as alternativas disponíveis tendem a ser mais caras ou possuir menos estudos de respaldo.

Como medida de contingência, o Ministério da Saúde adquiriu emergencialmente 80 mil frascos-ampola e 140 mil comprimidos do medicamento para distribuição em centros de referência. Paralelamente, a Anvisa foi solicitada a agilizar a liberação de lotes e a viabilizar importações excepcionais. A previsão oficial para a normalização do abastecimento é junho de 2026.

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