Ciência

A luz artificial no deserto do Atacama prejudica a eficiência de instrumentos de bilhões de dólares

27 de Abril de 2026 às 13:06

A luz artificial no deserto do Atacama prejudica a operação de telescópios e a qualidade de pesquisas científicas. O crescimento urbano, a mineração de cobre e a infraestrutura energética no norte do Chile reduzem a visibilidade do céu. A legislação local permitiu a proposta de um complexo de energia próximo ao Observatório Paranal

A poluição luminosa no norte do Chile ameaça a viabilidade de projetos astronômicos globais, colocando em risco a precisão de instrumentos que custaram bilhões de dólares. O avanço da luz artificial sobre o deserto do Atacama, região que oferece a escuridão absoluta necessária para a operação de telescópios de alta tecnologia, pode reduzir drasticamente a qualidade das observações e inviabilizar pesquisas científicas.

A produtividade do Atacama supera a de locais como o Havaí e as Ilhas Canárias devido à coexistência de três fatores: altitude elevada, que posiciona os equipamentos acima de grande parte da atmosfera; ar extremamente seco, que minimiza a distorção de sinais; e baixa presença de nuvens, o que assegura mais de 300 noites claras por ano.

A escuridão é o componente central para que esses instrumentos captem a luz mínima vinda de objetos a bilhões de anos-luz. Quando a iluminação artificial interfere no ambiente, ocorre a redução do contraste das imagens e o comprometimento da resolução. Esse cenário faz com que telescópios de alta performance operem com a eficiência de equipamentos significativamente menores. Além da luz, a precisão das medições é prejudicada por vibrações, poeira e alterações na composição atmosférica causadas por projetos próximos aos observatórios.

O Telescópio Extremamente Grande (ELT), em construção pelo Observatório Europeu do Sul, depende da manutenção desse céu escuro para ampliar a capacidade de observação a níveis inéditos. A fragilidade da proteção legal da região ficou evidente com a proposta de instalação de um complexo de energia verde, composto por turbinas eólicas e painéis solares, a apenas 10 quilômetros do Observatório Paranal. Embora a pressão de instituições de pesquisa e cientistas internacionais tenha levado ao cancelamento do projeto, o episódio revelou que a legislação chilena é insuficiente para barrar iniciativas semelhantes e que as zonas astronômicas protegidas necessitam de critérios mais rígidos.

O Atacama deixou de ser um território isolado para se tornar uma zona econômica ativa. A expansão urbana, a infraestrutura energética e a mineração de cobre — atividade na qual o Chile é o maior produtor mundial — resultaram em estradas iluminadas e complexos industriais que avançam em direção aos observatórios.

A degradação da qualidade do céu já resultou na perda de projetos no passado; no início do século XX, um observatório solar internacional operando no Chile foi desativado devido à poluição associada à mineração. Atualmente, a comunidade científica argumenta que o céu escuro é um recurso natural tão valioso quanto o cobre, com a diferença de que, uma vez perdido, não pode ser recuperado. Enquanto as autoridades revisam as normas ambientais, o ritmo das mudanças regulatórias não acompanha a velocidade do crescimento dos empreendimentos na região.

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