Ciência

Estudo revela que água engarrafada contém centenas de milhares de fragmentos de plástico por litro

27 de Abril de 2026 às 13:04

A Universidade Columbia contabilizou média de 240 mil partículas plásticas por litro de água engarrafada, com 90% de nanoplásticos e predominância de poliamida. Em análise na Espanha, 20 marcas apresentaram aditivos plásticos e média de 359 nanogramas de micro e nanoplásticos por litro

Estudos recentes revelam que a água engarrafada contém concentrações de partículas plásticas significativamente superiores às estimativas anteriores, alterando a percepção de pureza e segurança associada ao produto. Pesquisadores da Universidade Columbia, ao analisarem três marcas populares nos Estados Unidos, identificaram que um litro de água pode conter, em média, 240 mil fragmentos de plástico. A variação encontrada ficou entre 110 mil e 370 mil fragmentos por litro, volume que supera as previsões anteriores em dez a cem vezes.

A detecção foi possível graças à microscopia de espalhamento Raman estimulado, técnica que utiliza dois lasers simultâneos para identificar moléculas específicas. O levantamento revelou que 90% do material encontrado consistia em nanoplásticos, partículas com tamanho igual ou inferior a 100 nanômetros, enquanto os microplásticos variam entre 100 nanômetros e 5 milímetros. A predominância de nanoplásticos torna a contaminação mais difícil de medir e perceber.

Entre os materiais identificados, a poliamida — náilon proveniente de filtros de purificação — superou o PET, plástico comum nas garrafas. Também foram detectados poliestireno, cloreto de polivinila e polimetilmetacrilato. No caso do PET, a contaminação ocorre por meio do desprendimento de fragmentos durante a abertura e fechamento da tampa, exposição ao calor ou pressão exercida sobre a embalagem.

Paralelamente, uma investigação conduzida pelo CSIC e pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona analisou 280 amostras de 20 marcas comerciais na Espanha. O estudo, que quantificou partículas entre 0,7 e 20 micrômetros, constatou que todas as amostras continham aditivos plásticos, embora apenas uma marca estivesse livre de microplásticos. A média encontrada foi de 359 nanogramas de micro e nanoplásticos por litro, volume comparável ao da água de torneira, porém com diferença na composição química: enquanto a água da rede apresenta mais polipropileno e polietileno, a engarrafada concentra PET.

Além dos fragmentos sólidos, os pesquisadores em Barcelona detectaram 28 aditivos químicos, como plastificantes e estabilizantes. Três tipos de plastificantes foram apontados como riscos potenciais à saúde humana. Estima-se que um consumidor que beba dois litros de água por dia ingira 262 microgramas de partículas plásticas anualmente.

A preocupação com a exposição cotidiana é reforçada por evidências de que microplásticos foram encontrados em placas ateroscleróticas nas artérias, elevando o risco de infartos. Adicionalmente, a Associação Americana de Diabetes indica que a presença de microplásticos e BPA pode ampliar a resistência à insulina.

Apesar dos avanços, a ciência ainda enfrenta lacunas de identificação. A equipe de Columbia reconhece que a análise de sete tipos de plástico cobriu apenas 10% das nanopartículas detectadas. Caso o restante do material seja composto por plástico, o volume real de fragmentos pode atingir a casa dos milhões por litro.

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