Cometa interestelar apresenta concentração de água deuterada superior aos padrões do Sistema Solar
Estudo da Universidade de Michigan, publicado na Nature Astronomy, indica que o cometa interestelar 3i/ATLAS surgiu em ambiente mais frio que o do Sistema Solar. A análise via telescópio ALMA detectou concentração de água deuterada 30 vezes superior à de cometas locais. O fenômeno ocorre em temperaturas abaixo de 30 Kelvin
O cometa interestelar 3i/ATLAS, identificado em 2025, apresenta indícios de ter sido originado em um ambiente significativamente mais frio do que a região que deu início ao Sistema Solar. A conclusão é resultado de um estudo da Universidade de Michigan, publicado em 23 de abril na revista Nature Astronomy, que realizou a primeira medição de água deuterada em um objeto vindo de fora do nosso sistema planetário.
A análise baseou-se na composição química da água congelada do cometa, que atua como um registro do local de sua formação. Utilizando dados do telescópio Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), no Chile, os pesquisadores monitoraram o objeto durante sua aproximação ao Sol. Eles observaram que a água do 3i/ATLAS possui uma concentração de deutério — uma versão mais pesada do hidrogênio que forma a água deuterada (HDO) — drasticamente superior aos padrões conhecidos.
Enquanto nos cometas do Sistema Solar a proporção é de aproximadamente uma molécula de água deuterada para cada dez mil de água comum (H₂O), o 3i/ATLAS apresenta pelo menos 30 vezes essa quantidade. Quando comparado aos oceanos da Terra, o volume de água semipesada no cometa é mais de 40 vezes maior.
De acordo com Luis Salazar Manzano, autor principal da pesquisa e doutorando na Universidade de Michigan, essa concentração de deutério em relação ao hidrogênio comum supera qualquer registro anterior em cometas ou sistemas planetários. O fenômeno ocorre porque os processos químicos que elevam os níveis de deutério são mais eficientes em temperaturas extremamente baixas, especificamente abaixo de 30 Kelvin (cerca de -243 °C), condições estas que divergem das encontradas na formação do Sistema Solar.
A preservação da composição química original do 3i/ATLAS permite que astrônomos comparem as condições de outros sistemas planetários com as da Terra. Para a professora de astronomia Teresa Paneque-Carreño, coautora do estudo, a análise de cometas interestelares funciona como o exame de fósseis de outros lugares, possibilitando a compreensão de ambientes distantes por meio de instrumentos como o ALMA.