Jatos do sistema SS 433 têm potência 10 mil vezes superior à luminosidade solar
O observatório HAWC, no México, mensurou a potência dos jatos do sistema binário SS 433, na Via Láctea. A energia desses fluxos é 10 mil vezes a luminosidade solar, detectada via fótons de raios gama
Uma equipe internacional de pesquisadores mediu, pela primeira vez, a potência instantânea dos jatos emitidos pelo sistema binário SS 433, localizado na Via Láctea. Os dados revelam que esses fluxos de partículas possuem uma energia combinada equivalente a 10 mil vezes a luminosidade do Sol, resultado que redefine a compreensão sobre a força dos jatos relativísticos e sua interação com o ambiente galáctico.
O fenômeno ocorre a partir de um buraco negro de massa estelar que consome matéria de uma estrela companheira supergigante. Sob intensa pressão, parte desse material é expelido em dois feixes opostos que viajam a 26% da velocidade da luz. A medição inédita foi viabilizada pelo observatório HAWC, no México, situado a 4.100 metros de altitude. Através de tanques de água ultra-pura que detectam a radiação Cherenkov, os cientistas conseguiram isolar fótons de raios gama com energias superiores a 25 teraeletronvolts, separando esses sinais do ruído de fundo da radiação cósmica após anos de monitoramento contínuo.
Os jatos do sistema SS 433 apresentam um movimento de precessão, o que gera padrões complexos em formato de saca-rolhas no espaço. Ao colidirem com o gás interestelar, esses feixes produzem ondas de choque que aceleram partículas a níveis energéticos extremos, especialmente nos lobos terminais, localizados a dezenas de anos-luz do buraco negro central. Esse mecanismo de transferência de energia é o responsável pelo brilho intenso observado nas bordas da nebulosa que envolve o sistema.
A magnitude da energia liberada permite que esses jatos atuem como motores que moldam a estrutura da galáxia, criando cavidades e alterando a densidade do meio interestelar. O processo demonstra que buracos negros de massa estelar podem exercer influências comparáveis às de núcleos galácticos ativos, embora em escala reduzida.
A quantificação exata dessa potência permitiu testar modelos físicos de magnetohidrodinâmica de discos de acreção. Os pesquisadores confirmaram que a eficiência na conversão de matéria em radiação e energia cinética nesses jatos é significativamente maior do que as previsões anteriores, fornecendo dados essenciais sobre como a energia flui de objetos compactos para escalas macroscópicas no universo.
O estudo concluiu que a energia medida é estável e constitui uma característica intrínseca do motor central do sistema. Essa estabilidade transforma o SS 433 em um laboratório natural para a astrofísica de altas energias, abrindo caminho para a identificação de outros sistemas similares que podem influenciar a evolução da Via Láctea.