Sessenta por cento das missões para Marte não atingem os objetivos planejados
Missões a Marte apresentam índice de falha de 60%, com êxito de 70% nas tentativas dos Estados Unidos. Obstáculos incluem a frenagem orbital e a perda óssea de 1% ao mês em viagens tripuladas. A NASA produz oxigênio no planeta e a China planeja coletar amostras do solo até 2031
A exploração de Marte permanece como um dos maiores desafios da engenharia moderna, marcada por um histórico de alta volatilidade. Desde 1960, a Agência Espacial Europeia contabiliza mais de 40 missões enviadas ao planeta vermelho, das quais mais da metade resultou em fracasso, seja por explosões na órbita, perda de comunicação ou colisões na superfície. Dados de um engenheiro do JPL da NASA indicam que a taxa de insucesso dessas tentativas gira em torno de 60%, embora os Estados Unidos apresentem um desempenho superior, com 70% de êxito.
A dificuldade técnica reside, em grande parte, na complexidade da frenagem orbital. Durante o trajeto de nove a dez meses entre a Terra e Marte, as naves viajam a aproximadamente 50.000 km/h. Ao se aproximarem do destino, é necessário reduzir a velocidade para 15.000 km/h em poucos minutos para evitar que a sonda ultrapasse o planeta. Esse processo depende de um motor projetado para operar no vácuo por 15 minutos ininterruptos. Como esse equipamento explode ao ser acionado na atmosfera terrestre, ele não pode ser testado em solo pelo tempo necessário, tornando cada tentativa de pouso um experimento inédito e crítico.
Esse cenário explica as dificuldades enfrentadas por Rússia e Europa na execução de pousos operacionais. Em 1971, a sonda soviética Mars 3 conseguiu tocar o solo, mas transmitiu dados por apenas 14,5 segundos. Mais recentemente, a Agência Espacial Europeia registrou falhas com a Beagle 2, em 2003, e com a Schiaparelli, em 2016.
Para missões tripuladas, os obstáculos transcendem a engenharia de propulsão e atingem a fisiologia humana. A janela de lançamento ocorre a cada 26 meses, quando o alinhamento planetário torna a viagem viável. Uma expedição humana exigiria pelo menos quatro anos longe da gravidade terrestre: dez meses para a ida, quase dois anos de espera no planeta pela próxima janela orbital e outros dez meses para o retorno.
O impacto prolongado da microgravidade é severo. Na Estação Espacial Internacional, mesmo com horas diárias de exercícios em esteiras adaptadas com elásticos e alavancas, astronautas sofrem atrofia muscular, redistribuição de fluidos faciais e espaçamento das vértebras. Dados da NASA apontam ainda uma perda óssea estimada em 1% ao mês. Diante desse quadro, Sacani discute a possibilidade de o organismo humano não conseguir se readaptar às condições da Terra após tal período, estimando que o primeiro pouso humano ocorra por volta de 2050.
Apesar dos riscos, o interesse em Marte é impulsionado por fatores científicos e estratégicos. Por ter abrigado água líquida e possuído uma atmosfera densa, o planeta é o mais semelhante à Terra no sistema solar, servindo como modelo para compreender a evolução e o futuro do nosso próprio planeta. Economicamente, a corrida espacial movimenta bilhões de dólares em contratos, acelerando a criação de novos materiais, sistemas de propulsão e inteligência artificial para navegação autônoma.
Avanços recentes demonstram a progressão tecnológica: a NASA, por meio do experimento MOXIE no rover Perseverance, já conseguiu produzir oxigênio a partir do dióxido de carbono da atmosfera marciana. Enquanto a China planeja a coleta de amostras do solo até 2031, a SpaceX desenvolve o Starship com foco no transporte de humanos. Cada nova tentativa, independentemente do resultado, reduz a margem de erro para as missões subsequentes.