Modelo tridimensional revela como mosquitos Aedes aegypti utilizam pistas visuais e químicas para localizar humanos
Pesquisadores do MIT e do Instituto de Tecnologia da Geórgia criaram um modelo tridimensional que prevê o voo do Aedes aegypti. O estudo, publicado na Science Advances, indica que a localização de hospedeiros ocorre pela combinação de estímulos visuais e emissão de CO₂. A análise utilizou 20 experimentos com 53 milhões de pontos de dados
Pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e do Instituto de Tecnologia da Geórgia desenvolveram um modelo tridimensional que prevê a dinâmica de voo de mosquitos da espécie *Aedes aegypti* durante a busca por seres humanos. O estudo, publicado em 18 de março de 2026 na revista *Science Advances*, revela que a precisão do inseto em localizar hospedeiros, mesmo em ambientes com múltiplos estímulos, resulta do cruzamento de pistas visuais e químicas.
Para a construção desse mapeamento, foram realizados 20 experimentos que geraram mais de 477 mil trajetórias de voo e 53 milhões de pontos de dados. A análise demonstrou que o mosquito ajusta seu deslocamento com base em uma combinação de fatores: a silhueta humana, o contraste de cores e a emissão de dióxido de carbono (CO₂) proveniente da respiração.
O comportamento do inseto varia conforme o estímulo disponível. Quando detecta apenas um alvo visual, o mosquito se aproxima rapidamente, mas tende a se afastar caso não encontre a confirmação de outro sinal. Já na presença exclusiva de pistas químicas, como o CO₂, o voo torna-se mais cauteloso, com desacelerações e voltas curtas ao redor da fonte do odor. A estratégia mais eficiente ocorre quando a visão e o CO₂ atuam simultaneamente; nesse cenário, o inseto orbita a região com maior constância, elevando a probabilidade de pouso e picada.
A pesquisa identificou três padrões principais de aproximação. O primeiro consiste em um voo de passagem rápida, onde o mosquito mergulha em direção a um alvo visual e recua se não houver sinal químico. O segundo padrão ocorre na ausência de alvo visual, mas com presença de CO₂, resultando em movimentos de ida e volta para localizar a origem do sinal. O terceiro e mais crítico padrão acontece quando estímulos visuais e químicos coincidem, levando o inseto a orbitar o alvo com estabilidade até encontrar a oportunidade de ataque.
Um dado relevante do estudo é a alta concentração de trajetórias próximas à cabeça humana. Essa preferência ocorre porque a área reúne sinais intensos, como o contraste visual gerado por sombras ou cabelos, somado à proximidade da emissão de CO₂ respiratório. Esse mecanismo explica a sensação comum de que os insetos rodeiam o rosto e os ouvidos, evidenciando que o comportamento é uma resposta a pistas específicas e não um incômodo aleatório. Além disso, o modelo indica que a concentração de mosquitos em um mesmo local não ocorre por seguirem uns aos outros, mas por reagirem aos mesmos sinais ambientais.
Essas descobertas possuem implicações diretas no combate a doenças como dengue, zika, chikungunya e febre amarela. A Organização Mundial da Saúde estima que enfermidades transmitidas por vetores causem mais de 700 mil mortes anuais, com impacto severo em regiões tropicais e subtropicais, incluindo áreas urbanas brasileiras onde o *Aedes aegypti* é prevalente.
O modelo tridimensional permite simular a movimentação do inseto antes do ataque, possibilitando o desenvolvimento de tecnologias de controle mais precisas. O estudo sugere que armadilhas multissensoriais, que combinem calor, umidade, odores, CO₂ e sinais visuais em proporções realistas, seriam mais eficazes do que dispositivos baseados em atrativos isolados. Embora focado no *Aedes aegypti*, os cientistas acreditam que a metodologia pode ser adaptada para outras espécies, como as do gênero *Anopheles*, transmissoras da malária.