Ciência

Técnica de DNA ambiental permite identificar espécies por meio de vestígios genéticos suspensos no ar

16 de Abril de 2026 às 12:04

O uso de DNA ambiental (eDNA) capturado do ar permite a identificação de espécies por meio do sequenciamento de resíduos microscópicos confrontados com bancos de dados globais. A técnica foi validada em zoológicos e levantamentos biológicos, embora apresente imprecisão geográfica e riscos à privacidade genética humana. O projeto BIOSCAN integra laboratórios de 35 países para expandir esse mapeamento da biodiversidade

A atmosfera terrestre está sendo consolidada como um arquivo biológico capaz de revelar a presença de diversas espécies por meio de vestígios genéticos suspensos no ar. A técnica, fundamentada no uso do DNA ambiental (eDNA), permite a identificação de organismos sem a necessidade de captura ou visualização direta, transformando o monitoramento da biodiversidade em um processo mais ágil e, em certas etapas, automatizado.

O método opera como um sistema de captação molecular, utilizando dispositivos que recolhem partículas de poeira, pólen, fragmentos de pele e resíduos microscópicos de fezes. Esse material, ao qual o DNA se adere, é sequenciado e confrontado com bancos de dados globais, como o GenBank e o BOLD (Barcode of Life Data System), que catalogam milhões de organismos. A aplicação dessa tecnologia é especialmente estratégica para a biologia moderna, dado que menos de 20% das espécies do planeta foram formalmente catalogadas.

Embora a extração de DNA de solo e água date do século XX, a exploração do ar como fonte genética ganhou relevância a partir da década de 2010. Estudos revisados por pares, divulgados em publicações como a "Current Biology" e a revista "Environmental DNA" — esta última criada em 2019 para acompanhar a expansão da área —, comprovam a eficácia do sistema.

Testes realizados em zoológicos e estufas validaram a precisão da técnica. No Zoológico de Copenhague, sob liderança de Kristine Bohmann, da Universidade de Copenhague, detectaram-se dezenas de espécies a centenas de metros de distância. Em 2022, Elizabeth Clare, pesquisadora da Queen Mary University of London (anteriormente na Universidade de York), confirmou resultados semelhantes no Hamerton Zoo Park, no Reino Unido, onde aves e mamíferos foram identificados a até 300 metros dos pontos de coleta. Além disso, o uso de armadilhas do tipo Malaise em um levantamento nacional britânico permitiu a identificação de mais de mil grupos biológicos, incluindo microrganismos, fungos e insetos.

Apesar do potencial, a ciência enfrenta desafios técnicos e éticos. A imprecisão geográfica é um ponto crítico, pois fragmentos genéticos podem ser transportados por quilômetros dependendo do vento, criando "ecos genéticos" que não indicam a presença imediata do animal no local. Paralelamente, a possibilidade de capturar DNA humano gera alertas sobre a privacidade genética. Em 2023, David Duffy, da Universidade da Flórida, publicou na "Nature Ecology & Evolution" que a ausência de regulamentação poderia expor dados sensíveis, como ancestralidade e predisposição a doenças.

A perspectiva futura da tecnologia envolve a adaptação de infraestruturas existentes. Estações de coleta de pólen na Europa, operacionais há mais de cinco décadas, podem ser reaproveitadas para análises retrospectivas de mudanças ecológicas. A escala do monitoramento também se expande globalmente através do projeto BIOSCAN, que integra laboratórios de 35 países para o mapeamento genético da biodiversidade.

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