Ciência

Países do BRICS detêm a maioria dos artigos científicos mundiais sobre inteligência climática

17 de Abril de 2026 às 19:30

O bloco BRICS registrou 17.460 artigos sobre inteligência climática entre 2022 e 2025, o que equivale a 54,5% do total mundial. Segundo o oitavo Informe OCTI, publicado pelo CGEE na quinta-feira (16), a China lidera as publicações, apesar da reduzida cooperação científica entre os países membros

Os países que compõem o bloco BRICS concentram agora mais da metade da produção científica global em inteligência climática. Entre 2022 e 2025, o grupo foi responsável por 17.460 dos 32.040 artigos publicados mundialmente sobre o tema, o que representa 54,5% do total. Esse volume de publicações anuais mais que dobrou em três anos, superando a soma da produção de Japão, Europa e Estados Unidos nesse campo específico.

A ascensão do bloco é impulsionada pela convergência entre a ciência do clima, tecnologias energéticas e a inteligência artificial. Essa abordagem interdisciplinar permite a criação de modelos preditivos e a otimização de respostas a eventos extremos, como tempestades severas, ondas de calor, enchentes e secas. O uso de machine learning, alimentado por sensores oceânicos, estações meteorológicas e dados de satélites, tem proporcionado previsões mais precisas que os métodos tradicionais, garantindo aos países do BRICS maior soberania ao processarem seus próprios dados climáticos.

No cenário interno do bloco, a China detém a maior fatia de publicações, seguida pela Índia, enquanto Rússia e Brasil mantêm volumes menores, porém focados em áreas estratégicas. A contribuição brasileira se destaca pela aplicação de modelagem climática em demandas práticas, como o monitoramento do desmatamento, a gestão de recursos hídricos e a previsão de safras. O país concentra seus estudos em bioenergia, agricultura resiliente e nos biomas do Cerrado e da Amazônia, utilizando sua posição de laboratório natural e potência agrícola para subsidiar políticas de preservação e adaptação para produtores rurais.

Esses dados foram detalhados na oitava edição do Informe OCTI, lançada na quinta-feira (16) durante o Seminário OCTI. O evento, organizado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, discutiu as capacidades do Brasil no cenário global. Na ocasião, o presidente do CGEE, Anderson Gomes, pontuou que, embora haja capacidade para gerar estudos de qualidade, ainda existe a dificuldade de transpor esse conhecimento técnico para a efetiva tomada de decisão governamental.

Apesar da liderança quantitativa, o levantamento do CGEE revelou um paradoxo: a cooperação científica entre os membros do BRICS é baixa. A tendência predominante é a de publicações nacionais isoladas, com poucos projetos conjuntos entre os países do grupo. Barreiras linguísticas, ausência de mecanismos institucionais de incentivo e disparidades nos sistemas de financiamento de pesquisa são apontadas como as causas desse isolamento, que limita o impacto das descobertas sobre as políticas climáticas do bloco.

A mudança no eixo da produção científica altera o equilíbrio de poder acadêmico e político, deslocando a definição de agendas de pesquisa para economias emergentes. Com a representação de 41% do PIB global em paridade de poder de compra e mais de 40% da população mundial, o BRICS passa a formular soluções para as mudanças climáticas sob a perspectiva do Sul Global, reduzindo a dependência de modelos desenvolvidos no Norte.

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