Ciência

Calor aumenta riscos de desnutrição em crianças brasileiras, aponta estudo da The Lancet

19 de Abril de 2026 às 15:58

Pesquisa divulgada pela The Lancet associa o aumento da temperatura à desnutrição de crianças brasileiras de 1 a 5 anos entre 2007 e 2017. O estudo indica alta de 10% no baixo peso e de 8% na desnutrição aguda e crônica, com maior incidência no Norte, Nordeste e entre indígenas

A elevação das temperaturas está diretamente ligada ao agravamento da desnutrição infantil no Brasil. A conclusão é fruto de um estudo de cientistas brasileiros publicado na revista The Lancet, que analisou dados de cerca de 6 milhões de crianças entre 1 e 5 anos, coletados no período de 2007 a 2017, utilizando ainda uma base populacional de aproximadamente 100 milhões de pessoas para mensurar os impactos em larga escala.

A pesquisa revela que o calor altera o funcionamento do organismo infantil, desencadeando mudanças que prejudicam a nutrição. Priscila Ribas, pesquisadora da Fiocruz, explica que a reação do corpo varia conforme o tempo de exposição. Em intervalos de zero a três semanas após o contato com altas temperaturas, podem surgir quadros de baixo peso e desnutrição aguda. Já a exposição prolongada resulta em danos acumulados, manifestados principalmente pelo comprometimento do crescimento e a baixa estatura.

Os indicadores de desnutrição apresentam alta significativa associada ao calor: a probabilidade de baixo peso aumenta em 10%, enquanto os casos de desnutrição aguda e crônica sobem 8%. O estudo também identificou disparidades entre os gêneros. Meninos apresentam maior incidência de atraso no crescimento, atingindo 10,40% da amostra. Entre as meninas, a concentração é maior em casos de baixo peso, com 4,22%, e desnutrição aguda, com 5,90%.

A distribuição dos danos não é uniforme, concentrando-se nas regiões Norte e Nordeste, em zonas rurais e em grupos socialmente vulneráveis. Crianças indígenas estão entre as mais afetadas, com mais de 26% apresentando atraso no crescimento e 6,72% com baixo peso. A vulnerabilidade socioambiental é acentuada em filhos de mães indígenas e pretas.

Além dos danos imediatos, a exposição contínua ao calor pode gerar sequelas permanentes no desenvolvimento físico e cognitivo. O cenário é agravado pelas mudanças climáticas, que reduzem a disponibilidade de alimentos e intensificam a desnutrição. Para a pesquisadora da Fiocruz, o aumento da temperatura não é um risco neutro, mas atua como um multiplicador de vulnerabilidades, conectando fatores ambientais e sociais à saúde infantil.

Com informações de Click Petróleo e Gás

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