Cientistas desenvolvem material inspirado em lulas para reduzir a detecção de alvos militares
Cientistas da University of California, Irvine, e do Marine Biological Laboratory criaram materiais que alteram a coloração via estímulos mecânicos, baseando-se na lula Doryteuthis pealeii. O sistema utiliza refletores de Bragg e filmes metálicos para modificar a imagem nos espectros visível e infravermelho próximo. Com verba da DARPA e Air Force Office of Scientific Research, a pesquisa busca desenvolver tecidos militares para diminuir a detecção por sensores
Pesquisadores da University of California, Irvine, em parceria com o Marine Biological Laboratory de Woods Hole, em Massachusetts, desenvolveram materiais bioinspirados capazes de alterar a aparência em resposta a estímulos mecânicos ou ambientais. O projeto, detalhado no estudo “Gradient refractive indices enable squid structural color and inspire multispectral materials”, replicou as propriedades ópticas da pele da lula Doryteuthis pealeii, espécie que transita entre a transparência e cores intensas por meio de estruturas celulares especializadas.
A tecnologia consiste em compósitos flexíveis que utilizam refletores de Bragg nanoestruturados combinados a filmes metálicos ultrafinos, dispensando o uso de pigmentos tradicionais. O funcionamento baseia-se em estruturas físicas que manipulam a luz: camadas organizadas interferem na luz incidente para refletir comprimentos de onda específicos. Quando o material é submetido a deformações, como dobras ou esticamentos, o espaçamento entre essas camadas é alterado, modificando automaticamente a cor percebida. Por ser um processo passivo, a mudança ocorre sem a necessidade de sistemas eletrônicos complexos, o que amplia a confiabilidade em ambientes operacionais e reduz a demanda por energia.
O desenvolvimento visa a criação de tecidos militares com resposta multiespectral, capazes de ajustar a aparência nos espectros visível e infravermelho próximo em tempo real. Essa característica é estratégica para o setor de defesa, pois permite modular a cor, a refletância e a emissão térmica de superfícies, dificultando a detecção por sensores ópticos e infravermelhos. Embora a igualdade total de temperatura entre o objeto e o ambiente ainda seja um desafio técnico, a modulação da emissão térmica reduz a assinatura detectável, oferecendo vantagem tática em cenários de monitoramento.
Financiado pela DARPA e pelo Air Force Office of Scientific Research, o estudo surge em um contexto onde as camuflagens tradicionais tornaram-se insuficientes diante da evolução dos sistemas de detecção de alvos. Em vez de buscar a invisibilidade total, a proposta foca na redução da detectabilidade para dificultar a identificação do alvo.
A equipe de pesquisadores já produziu amostras do material em escalas superiores às de laboratório. No entanto, a viabilidade da produção industrial ainda depende da superação de desafios relacionados à durabilidade, escalabilidade e custos de fabricação. O avanço transforma a camuflagem em um sistema dinâmico e adaptável, integrando a superfície ao ambiente de forma ativa.