Ciência

Esqueleto humano com 12 mil anos é descoberto em sítio arqueológico de Serranópolis

25 de Abril de 2026 às 12:09

Um esqueleto humano quase íntegro, estimado em 12 mil anos, foi localizado em 2023 na Gruta do Diogo 2, no município de Serranópolis, em Goiás. O Iphan registrou dez crânios de 3 a 4 mil anos no sítio GO-Ja-02, além de pinturas rupestres e ferramentas líticas

A descoberta de um esqueleto humano quase completo no sítio Gruta do Diogo 2, em 2023, trouxe novos elementos para a compreensão da ocupação antiga no Planalto Central. A idade do fóssil é estimada em 12 mil anos, com base na datação de carvão encontrado próximo ao material ósseo, que variou entre 11.700 e 11.900 anos, embora a confirmação exata dependa de análises diretas dos ossos. Esse achado, ocorrido em uma área monitorada há décadas, reforça que os abrigos rochosos de Serranópolis, no sudoeste de Goiás, preservam vestígios de presença humana que remontam a cerca de 11 mil anos, conforme dados do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A ocupação da região não ocorreu em um único evento, mas em períodos distintos. Em 2022, o Iphan identificou no sítio GO-Ja-02, integrante do complexo do Diogo, uma estrutura funerária contendo dez crânios humanos com datação relativa entre 3 mil e 4 mil anos. A sucessão de camadas arqueológicas revela que os abrigos sob rocha foram utilizados para permanência, passagem, sepultamentos e produção de artefatos, evidenciando mudanças nas práticas funerárias e na relação dos grupos com o ambiente ao longo do tempo.

O registro visual dessa trajetória está presente nas paredes de arenito, onde figuras humanas, animais e formas geométricas compõem a arte rupestre. Esses pigmentos, embora desgastados pela umidade, por organismos naturais e pelo tempo, servem como documentos sobre a comunicação e as escolhas simbólicas de populações antigas, desde que a interpretação seja feita com cautela para não atribuir rituais ou observações astronômicas sem evidências complementares.

Além das pinturas, a análise de instrumentos líticos permite reconstruir a tecnologia de grupos caçadores-coletores. Foram identificadas lascas alongadas e peças produzidas por métodos específicos de talhamento, utilizadas para cortar, raspar, processar alimentos e trabalhar com couro, fibras vegetais ou madeira. O cruzamento desses objetos com fragmentos cerâmicos de camadas mais recentes e restos de fogueiras possibilita o estudo da alimentação e das adaptações ambientais no Cerrado.

As investigações científicas em Serranópolis tiveram início na década de 1970, sob a coordenação dos professores Altair Sales Barbosa e Pedro Ignácio Schmitz. Desde então, o mapeamento de dezenas de sítios transformou o município em uma referência para a arqueologia brasileira, demonstrando que a pré-história do país possui vestígios distribuídos por diversos biomas, e não concentrados em apenas uma região.

Atualmente, esses sítios estão inseridos em uma paisagem dominada por estradas rurais e atividades do agronegócio. Essa configuração torna a preservação dependente de uma articulação entre o poder público, proprietários de terras e a comunidade local. A circulação desacompanhada de visitantes representa um risco real, pois pichações, a retirada de fragmentos, o descarte de lixo e o toque nas pinturas comprometem a integridade dos achados. Na arqueologia, a remoção de um vestígio sem o devido registro apaga a relação do objeto com a camada de solo e os materiais adjacentes, destruindo a informação científica.

Para mitigar esses danos, estudos do Iphan apontam a necessidade de planejamento no turismo arqueológico, com foco em educação patrimonial e fiscalização. A relevância do material de Serranópolis foi destacada em exposição sobre os primeiros habitantes de Goiás, onde objetos da região ajudam a narrar a história de agricultores, ceramistas e caçadores-coletores. A continuidade de pesquisas, utilizando datações precisas, estudos de DNA e mapeamentos não invasivos, deve ampliar o conhecimento sobre os povos que habitaram o interior do Brasil antes da chegada dos europeus.

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