Ciência

Estudo indica que a atividade cerebral pode continuar por até uma hora após a parada cardíaca

25 de Abril de 2026 às 18:58

O estudo AWARE II, publicado em 2023, constatou a manutenção de processos mentais durante paradas cardíacas em ambiente hospitalar. A investigação com 567 pacientes nos Estados Unidos e Reino Unido apontou que 39% dos sobreviventes entrevistados relataram consciência. Exames de EEG em 85 indivíduos registraram atividade cerebral de processamento cognitivo por até uma hora após a parada

A pesquisa AWARE II (AWAreness during REsuscitation), publicada em 2023 na revista científica Resuscitation, indica que a ausência de sinais clínicos visíveis de consciência durante uma parada cardíaca intra-hospitalar não significa, necessariamente, que a atividade mental tenha cessado. O estudo, liderado pelo cardiologista Sam Parnia, sugere que processos mentais podem ocorrer mesmo sob condições extremas de privação de oxigênio, desafiando a compreensão tradicional de que a atividade cerebral termina rapidamente após a interrupção do fluxo sanguíneo.

Entre maio de 2017 e março de 2020, a investigação acompanhou 567 pacientes em 25 hospitais distribuídos entre Estados Unidos e Reino Unido. Do total de participantes, 53 sobreviveram, dos quais 28 puderam ser entrevistados. Cerca de 39% desses sobreviventes relataram memórias ou percepções compatíveis com algum grau de consciência durante o evento, sendo que 11 pacientes descreveram experiências mentais no período em que clinicamente pareciam inconscientes. Alguns relatos incluíram a percepção de sons, conversas e procedimentos médicos realizados durante a reanimação.

Para fundamentar as observações, a equipe utilizou eletroencefalografia (EEG) e outros métodos de monitoramento cerebral em tempo real em um subconjunto de 85 pacientes. Os registros detectaram padrões de ondas cerebrais associados ao processamento cognitivo e à consciência, incluindo faixas alfa, teta e delta, além de estruturas mais complexas de atividade elétrica organizada, mesmo durante manobras prolongadas de ressuscitação cardiopulmonar (RCP). Dados associados ao projeto apontam, ainda, que a atividade cerebral ligada à memória e ao pensamento pode persistir por até uma hora após a parada cardíaca.

A metodologia do estudo buscou diferenciar a memória subjetiva da percepção verificável por meio de métodos experimentais inovadores, projetados para testar se os pacientes conseguiriam relatar informações indisponíveis em condições normais de percepção. Embora a identificação desses estímulos tenha sido limitada, os resultados não descartaram a possibilidade de processamento sensorial.

Os pesquisadores reconhecem limitações importantes na análise, como a baixa taxa de sobrevivência — apenas 53 dos 567 pacientes — e o reduzido número de entrevistados, o que restringe a generalização dos dados. Fatores como danos neurológicos, sedação e fragmentação da memória também são considerados variáveis que podem influenciar os relatos.

O trabalho de Sam Parnia e sua equipe levanta a hipótese de que a consciência pode persistir em estados que escapam às ferramentas convencionais de monitoramento, já que a medicina tradicional define a consciência com base em respostas a estímulos e padrões cerebrais conhecidos.

A interpretação desses achados gera debate na comunidade científica. Enquanto parte dos pesquisadores argumenta que as experiências podem ser fruto de reconstruções de memória pós-recuperação ou atividade neurobiológica residual, outros defendem que os dados revelam lacunas no entendimento atual sobre a mente humana. Devido a essas controvérsias, os autores defendem a continuidade das investigações para determinar se tais fenômenos são comuns ou raros, expandindo a discussão para as áreas de neurociência, psicologia e filosofia da mente.

Com informações de Click Petróleo e Gás

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