Economia

BRICS desenvolve sistema de pagamentos com moedas digitais para realizar transações sem o dólar

18 de Abril de 2026 às 07:51

O grupo BRICS estuda a criação de um mecanismo de pagamentos com moedas digitais próprias para reduzir a utilização da moeda estadunidense. O projeto prevê a interoperabilidade de moedas soberanas com base no modelo do PIX brasileiro. A discussão ocorrerá na 18ª Cúpula, na Índia, em 2026

O bloco BRICS trabalha na implementação de um sistema de pagamentos baseado em moedas digitais nacionais para reduzir a dependência global do dólar americano. A proposta, apresentada pelo Reserve Bank of India durante a última cúpula, visa criar um mecanismo de transações diretas entre os países membros, eliminando a necessidade de intermediários financeiros ocidentais. O projeto terá discussões aprofundadas durante a 18ª Cúpula dos BRICS, que ocorrerá na Índia em 2026.

A iniciativa fundamenta-se no cenário atual do comércio entre as economias do bloco, onde 65% das transações já são realizadas em moedas locais. No caso específico de China e Índia, a segunda e a quarta maiores economias globais, 80% do comércio mútuo ocorre sem a utilização do dólar. Apesar desses índices, a liquidez de grande parte dessas moedas permanece limitada — com exceção do yuan chinês — e o processamento das operações ainda depende de infraestruturas ocidentais.

O modelo proposto não prevê a criação de uma moeda única, como ocorre com o euro, mas sim a interoperabilidade entre moedas digitais soberanas (CBDCs). Esse sistema permitiria que bancos centrais liquidassem transações diretamente, convertendo automaticamente as moedas digitais de cada país, como no caso de uma operação entre real digital e rupia digital, sem a necessidade de conversão para o dólar ou o uso da plataforma SWIFT, frequentemente utilizada para a aplicação de sanções.

A arquitetura do sistema tem como referência o PIX brasileiro, que processa transações em segundos, com custo quase nulo e conta com mais de 150 milhões de usuários. A lógica de eficiência e acessibilidade do modelo brasileiro seria adaptada para a escala internacional, conectando bancos centrais de diferentes nações.

No campo institucional, a Força-Tarefa de Pagamentos dos BRICS já definiu parâmetros de interoperabilidade. Durante a Cúpula do Rio, em 2025, os líderes assinaram uma declaração que estabeleceu o desenvolvimento desse sistema como prioridade estratégica, delegando a governadores de bancos centrais e ministros da Fazenda a continuidade dos trabalhos técnicos.

A China detém a maior vantagem tecnológica no grupo com o yuan digital (e-CNY), que já registra trilhões de dólares em transações, além do investimento na plataforma mBridge para liquidações diretas entre bancos centrais. Contudo, a liderança chinesa gera tensões, pois outros membros temem que a desdolarização resulte em uma "yuanização", substituindo a dependência de uma moeda por outra. A aposta na interoperabilidade de moedas soberanas serve para garantir que cada país mantenha sua política monetária e soberania econômica.

Com a representação de cerca de 30% do comércio mundial, a autonomia financeira do bloco reduz a influência dos Estados Unidos sobre os fluxos globais, sendo vital para a sobrevivência econômica de nações sob sanções, como Irã e Rússia. Para o Brasil, a medida reduz a exposição à volatilidade do dólar e elimina a dupla conversão cambial em exportações e importações com parceiros do bloco, o que pode economizar bilhões em taxas.

A viabilização total do sistema enfrenta obstáculos técnicos e políticos. A baixa liquidez de diversas moedas do bloco dificulta a conversão de grandes volumes sem o dólar como referência de preço. Além disso, a harmonização de regulações financeiras entre 11 países com diferentes sistemas jurídicos e níveis tecnológicos exige negociações complexas e a definição de padrões comuns de interoperabilidade.

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