Estudo revela que corpos moles de esponjas primitivas causaram lacuna no registro fóssil animal
Um estudo publicado na revista Nature identificou que a lacuna de 160 milhões de anos no registro fóssil do primeiro animal da Terra ocorreu devido aos corpos moles dos organismos primitivos. A análise de uma esponja marinha de 550 milhões de anos, coordenada por Shuhai Xiao, comprovou que a ausência de estruturas rígidas impedia a fossilização comum
Um estudo publicado na revista Nature em 15 de abril de 2026 resolveu um impasse de mais de um século na paleontologia ao identificar a razão de uma lacuna de 160 milhões de anos no registro fóssil do primeiro animal da Terra. Enquanto análises de DNA indicavam que as esponjas marinhas surgiram há cerca de 710 milhões de anos, os fósseis mais antigos conhecidos datavam de apenas 540 milhões de anos. A descoberta de um exemplar de 550 milhões de anos revelou que a ausência de vestígios nesse intervalo ocorreu porque esses organismos primitivos possuíam corpos moles, sem estruturas rígidas que permitissem a fossilização comum.
A pesquisa foi coordenada pelo geobiólogo Shuhai Xiao, da Virginia Tech, com a colaboração de cientistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e do Instituto de Geologia e Paleontologia de Nanjing, na China. O fóssil analisado pertence a uma esponja marinha primitiva, parente distante das atuais esponjas de vidro. Diferente das espécies modernas, que utilizam espículas de sílica para conferir rigidez ao corpo, esse ancestral era inteiramente macio, o que o tornava vulnerável à decomposição e invisível aos registros rochosos tradicionais.
O diferencial deste achado foi a preservação excepcional da textura da superfície do corpo, algo raro em fósseis, que geralmente registram apenas partes duras como conchas e ossos. Xiaopeng Wang, pesquisador do Instituto de Nanjing e da Universidade de Cambridge, identificou um padrão específico na superfície do animal que permitiu a classificação como esponja, mesmo sem a presença das espículas típicas. Esse padrão, inédito em outros fósseis, serviu como a prova física de uma hipótese levantada por Xiao e sua equipe em 2019.
A existência de animais nesse período indica que a vida animal na Terra é, no mínimo, 170 milhões de anos mais antiga do que os registros fósseis sugeriam anteriormente. Esse dado revela que os primeiros animais não surgiram após as glaciações extremas conhecidas como "Snowball Earth", mas sim que sobreviveram a esses eventos climáticos globais.
A descoberta altera a metodologia de busca por fósseis antigos, sugerindo que a paleontologia deve priorizar a procura por impressões sutis de tecidos moles em vez de focar apenas em estruturas minerais. Para que a preservação ocorresse, foi necessária a combinação rara de pressão, temperatura e ausência de oxigênio. Apesar do avanço, os pesquisadores ressaltam que, por se tratar de um único fóssil, a ideia de que a ausência de esqueleto era a norma entre as primeiras esponjas ainda é uma proposta explicativa que requer novas evidências para ser confirmada.