Astronautas precisaram de suporte físico para ficar em pé após 288 dias na Estação Espacial
Sunita Williams e Barry Wilmore retornaram à Terra em 18 de março de 2025 após 288 dias na Estação Espacial Internacional devido a falhas nos propulsores da cápsula Starliner. O período em microgravidade causou atrofia muscular, perda de densidade óssea e alterações visuais nos astronautas. Os dados coletados pela Universidade da Flórida servirão para planejar futuras missões a Marte
A permanência de 288 dias na Estação Espacial Internacional (ISS) transformou a missão de Sunita Williams e Barry Wilmore em um estudo detalhado sobre os limites da fisiologia humana em microgravidade. O que deveria ter sido uma jornada de oito a quatorze dias, iniciada em 5 de junho de 2024 a bordo da cápsula Starliner Calypso da Boeing, prolongou-se após falhas em cinco dos 28 propulsores da nave, que comprometeram o controle do veículo. Devido à insegurança do retorno, a NASA enviou a cápsula de volta à Terra sem tripulação em setembro de 2024, enquanto os astronautas aguardaram o resgate em uma cápsula Dragon da SpaceX, ocorrendo em 18 de março de 2025.
A Universidade da Flórida, que monitorou os astronautas em todas as etapas, observou que a ausência de gravidade a 354 quilômetros de altitude — onde a Terra é orbitada a cada 90 minutos — altera profundamente o sistema nervoso central, a mobilidade e a função cerebral. Os impactos fisiológicos começam com a redistribuição de fluidos para a parte superior do corpo, reduzindo o volume sanguíneo total entre 10% e 15%. Essa mudança diminui a carga de trabalho do coração, que consequentemente perde massa muscular.
A ausência de carga mecânica acelera a atrofia dos músculos das pernas, com perdas de força que podem atingir 20% em poucas semanas e níveis ainda maiores em missões longas. No caso de Williams e Wilmore, a degradação foi tamanha que, após os 288 dias em órbita, ambos necessitaram de suporte físico imediato por serem incapazes de permanecer em pé sem assistência. O sistema esquelético também é afetado, com a densidade mineral óssea caindo entre 1% e 2% ao mês, um ritmo que supera em até 12 vezes a osteoporose severa terrestre.
Outro efeito crítico é a Síndrome Neuro-Ocular Associada ao Voo Espacial, provocada pelo deslocamento de fluidos para a cabeça e o consequente aumento da pressão intracraniana. O fenômeno resulta no achatamento do globo ocular e na redução da capacidade visual, com alterações que, em alguns casos, persistem por anos. Somado a isso, a exposição à radiação cósmica fora da proteção do campo magnético terrestre pode causar danos ao sistema nervoso central e elevar o risco de câncer.
Para mitigar esses danos, a rotina incluía duas horas diárias de exercícios com equipamentos de resistência, embora a atividade física não consiga compensar totalmente as alterações fisiológicas. Após o retorno, os astronautas passam por um programa de reabilitação de 45 dias focado em recuperação cardiovascular, fortalecimento e recondicionamento neuromotor. Contudo, a recuperação de funções cognitivas, de equilíbrio e da estrutura cerebral pode levar meses ou anos.
O volume de dados coletados — que inclui exames de imagem, testes cognitivos e análises sanguíneas — é considerado essencial para viabilizar futuras missões de longa duração, como viagens tripuladas a Marte.