Ciência

Estudo da NASA com irmãos gêmeos revela que o espaço altera a expressão gênica humana

21 de Abril de 2026 às 18:07

A NASA monitorou as alterações biológicas de Scott Kelly após 340 dias na Estação Espacial Internacional, comparando-o ao seu irmão gêmeo na Terra. O estudo identificou mudanças na expressão gênica, nos telômeros, no sistema imunológico, no microbioma intestinal e em funções cognitivas. As transformações foram atribuídas à radiação espacial e à microgravidade

A NASA conduziu, a partir de março de 2015, o *Twins Study*, um experimento de alta complexidade para monitorar as alterações moleculares, celulares e sistêmicas causadas pelo ambiente espacial no corpo humano. A pesquisa utilizou os astronautas veteranos Scott e Mark Kelly, irmãos gêmeos idênticos, para isolar variáveis genéticas e atribuir as mudanças observadas exclusivamente ao ambiente externo. Enquanto Scott permaneceu 340 dias consecutivos na Estação Espacial Internacional (ISS) entre 2015 e 2016, Mark ficou na Terra, servindo como grupo de controle biológico.

Os resultados, publicados em 2019 após revisão por pares, revelaram que a sobrevivência fora da Terra exige uma reconfiguração profunda do organismo. Um dos pontos centrais foi a análise dos telômeros, estruturas protetoras dos cromossomos ligadas ao envelhecimento. Durante a missão, os telômeros de Scott Kelly alongaram-se, sugerindo um efeito rejuvenescedor temporário. Contudo, após o retorno ao planeta, essas estruturas encurtaram rapidamente, chegando a níveis inferiores aos registrados antes da viagem, o que demonstra que o espaço desestabiliza processos celulares em vez de retardar o envelhecimento.

A análise da expressão gênica indicou que cerca de 7% dos genes de Scott Kelly mudaram a forma de ativação ou desativação durante a estadia na ISS. Embora a maioria dessas alterações tenha sido revertida após o pouso, uma pequena parcela permaneceu alterada, evidenciando um estado de adaptação contínua do corpo. Paralelamente, o sistema imunológico apresentou sinais de adaptação ao estresse constante do ambiente espacial, mantendo-se funcional, mas exigindo ajustes para preservar o equilíbrio fisiológico.

O estudo também identificou impactos no microbioma intestinal, com variações na composição bacteriana de Scott em comparação ao seu estado pré-voo e ao microbioma de seu irmão. Embora tenha havido uma tendência de normalização após o retorno, a descoberta mostra que microrganismos internos também são afetados pelo espaço.

No campo cognitivo, as alterações manifestaram-se principalmente após a volta à Terra, com redução na precisão de tarefas e na velocidade de processamento mental. Esse efeito tardio indica que a readaptação à gravidade terrestre é um momento crítico para o cérebro.

Os pesquisadores atribuíram essas transformações a dois fatores principais: a radiação espacial, capaz de danificar o DNA e as células, e a microgravidade, que altera o funcionamento sistêmico ao eliminar a carga mecânica sobre o corpo.

Os dados do *Twins Study* são essenciais para viabilizar missões de longa duração, como viagens à Lua e a Marte, onde a exposição a condições extremas será prolongada. O experimento comprovou que, embora o organismo humano seja capaz de se adaptar ao espaço, essa resiliência possui um custo biológico mensurável, tornando a compreensão desses limites fundamental para a segurança de futuras explorações.

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